Adamastor Furia — Quando Portugal decidiu construir o seu próprio supercarro

Vista frontal oficial do Adamastor Furia Vista exterior oficial do Adamastor Furia em perspetiva dianteira, evidenciando a silhueta baixa, a largura e as proporções da carroçaria. Fotografia: Caramulo Motorfestival.

Do P003 à máquina de mais de 750 cv que transformou aerodinâmica, carbono e ambição portuguesa num supercarro — e regressou ao Caramulo Motorfestival em 2026 para mostrar até onde já chegou.

Portugal passou décadas a perguntar se algum dia construiria o seu próprio supercarro. Talvez a pergunta estivesse errada. A questão não era “se”. Era “quando”. E o quando chama-se Adamastor Furia.

Adamastor Furia apresentado ao público no Caramulo Motorfestival 2026
O Adamastor Furia entre o público: o encontro SPUNIQCARS com o Development Prototype 001.
Fotografia: António Ricardo / SPUNIQCARS — Caramulo Motorfestival 2026

Há automóveis que nascem de um plano de produto. Outros começam num estudo de mercado, numa plataforma já existente ou na necessidade de preencher mais um espaço numa gama.

O Adamastor Furia nasceu de uma coisa simultaneamente mais simples e muito mais difícil: ambição.

A ambição de demonstrar que em Portugal não existe apenas capacidade para fabricar componentes, montar automóveis concebidos noutros países ou fornecer engenharia para projetos internacionais. Existe conhecimento para imaginar uma máquina a partir de uma folha em branco, desenvolver a sua estrutura, estudar a sua aerodinâmica, testá-la, construí-la e colocar sobre ela uma marca portuguesa.

E fazê-lo logo num dos territórios mais implacáveis da indústria automóvel: o dos supercarros.

Não é propriamente escolher a piscina das crianças para aprender a nadar.

O Furia é baixo, extraordinariamente largo e visualmente agressivo, mas seria um erro interpretá-lo como um exercício de estilo criado para provocar fotografias. A sua forma é consequência de uma filosofia de desenvolvimento na qual a aerodinâmica assumiu prioridade desde o início.

Por isso, quando observamos os enormes canais inferiores, as superfícies que encaminham o ar e uma traseira que parece ter sido escavada pelo vento, não estamos perante decoração.

Estamos a olhar para engenharia.

P003 — o antepassado que não era ainda o Furia

Nenhum automóvel desta complexidade nasce verdadeiramente de uma folha em branco. A folha pode estar vazia. A experiência de quem segura o lápis, não.

Quando a Adamastor começou a sua história no Porto, em 2010, Ricardo Quintas e Nuno Faria estavam ainda longe do automóvel que hoje conhecemos como Furia. O projeto nasceu da aproximação entre empresa, engenharia, academia e competição, contando também com a experiência de Frederico Ribeiro, hoje Diretor de Engenharia da Adamastor.

Vieram estudos. Vieram chassis. Vieram experiências. E dessa sucessão de aprendizagem nasceu um nome que os leitores mais antigos da SPUNIQCARS certamente reconhecerão: P003.

Em janeiro de 2019 escrevemos sobre o Adamastor P003RL. Na altura, aquele automóvel materializava uma ambição portuguesa que já parecia extraordinária: criar uma máquina extremamente leve, orientada para a performance e desenvolvida com uma participação nacional muito significativa.

O P003 condensou conhecimento acumulado pela equipa e tornou-se uma plataforma para aquilo que viria depois. Mas seria historicamente incorreto olhar para ele simplesmente como a «primeira geração» do Furia.

O Furia não é um P003 vestido de gala.

É outro projeto. Outra arquitetura. Outra dimensão industrial. Outra ambição.

O parentesco existe no conhecimento, nas pessoas, na experiência adquirida e naquela teimosia saudável que leva alguém a olhar para uma ideia extraordinariamente difícil e concluir que a solução mais sensata é continuar.

Em 2019, a Adamastor reposicionou-se como fabricante português de supercarros de baixo volume, elevando os objetivos até à competição GT e mantendo no horizonte as 24 Horas de Le Mans.

P003 → conhecimento → mudança de ambição → nova arquitetura → Furia.

Protótipo Adamastor P003RL
Adamastor P003RL em pista: antecedente técnico e plataforma de aprendizagem, não uma primeira geração do Furia.
Fotografia: ACP — Automóvel Club de Portugal — Fonte oficial

Por baixo da pele — a engenharia do Adamastor Furia

Retiremos por momentos ao Furia aquilo que primeiro nos prende o olhar. Esqueçamos as proporções. Esqueçamos os enormes canais aerodinâmicos. Esqueçamos até o facto de estarmos perante um supercarro concebido e construído em Portugal.

O que sobra? É precisamente aí que o Furia se torna ainda mais interessante. Porque a Adamastor não tentou resolver o problema começando pela aparência de um supercarro. Tentou construir a arquitetura necessária para que ele funcionasse como um.

Vista frontal oficial do Adamastor Furia
Vista exterior oficial do Adamastor Furia em perspetiva dianteira, evidenciando a silhueta baixa, a largura e as proporções da carroçaria.
Fotografia: Caramulo Motorfestival — Fonte oficial

Fibra de carbono: a estrutura antes do brilho

A utilização de fibra de carbono num supercarro pode existir numa cobertura de espelho, num elemento decorativo do habitáculo ou num spoiler. No Furia, constitui parte fundamental da própria arquitetura do automóvel.

A Adamastor acumulou competências na conceção e produção de componentes em materiais compósitos e colocou esse conhecimento no centro do projeto. Nas instalações de Perafita dispõe de capacidade para desenvolver componentes, ferramentas e equipamentos, trabalhando também em maquinação CNC, impressão 3D e produção de peças em fibra de carbono.

A descrição estrutural mais segura é a da própria marca: construído integralmente em fibra de carbono. O carbono serve o peso, mas serve também o chassis; e o chassis serve a aerodinâmica.

Produção de componentes em materiais compósitos na Adamastor
Trabalho de fabrico em materiais compósitos nas instalações da Adamastor, uma competência central da construção do Furia.
Fotografia: Adamastor Automotive — Fonte oficial

Aerodinâmica: o designer invisível

A forma segue a função. Mas neste caso podemos ser ainda mais específicos: a forma segue o ar.

Durante o desenvolvimento, a Adamastor colocou a aerodinâmica numa posição invulgarmente elevada na hierarquia do design. Recorreu a simulação CFD com a Creodynamics, ferramentas Siemens NX e tecnologia Canopy Simulations para estudar desempenho e tempos por volta.

Debaixo do automóvel, a geometria do fundo acelera o fluxo através de canais associados ao efeito Venturi. O resultado é uma força que empurra a máquina contra o asfalto. Ou, dito de maneira menos académica: o Furia tenta ser sugado para a estrada.

No lançamento de 2024 foram anunciados aproximadamente 1000 kg de downforce a 250 km/h para o Road e 1800 kg à mesma velocidade para o Race. São valores declarados para aquela fase do projeto, não medições independentes realizadas por esta publicação.

Detalhe aerodinâmico da carroçaria do Adamastor Furia
As superfícies, aberturas e canais mostram uma carroçaria organizada em função do percurso do ar.
Fotografia: António Ricardo / SPUNIQCARS — Caramulo Motorfestival 2026

Uma suspensão criada também para servir a aerodinâmica

O Furia utiliza triângulos duplos desacoplados, com mola helicoidal sobre amortecedor, para controlar a plataforma aerodinâmica. A afinação anunciada em 2024 permite intervir em convergência, camber, caster, altura ao solo, rigidez ao rolamento e resposta vertical.

A Adamastor afirma ter desenvolvido internamente um sistema inovador de suspensão, registado e publicado através de patente internacional. A empresa possui também acreditação da ANI para atividades de investigação e desenvolvimento.

O Furia quer saber exatamente onde está a sua carroçaria relativamente ao asfalto.

O coração: 3,5 litros, seis cilindros e dois turbos

Atrás do habitáculo encontra-se um V6 biturbo de 3,5 litros proveniente da Ford Performance, colocado longitudinalmente e associado à tração traseira.

Quando o automóvel foi apresentado em 2024, a marca anunciava mais de 650 cv e mais de 571 Nm. A especificação atualmente comunicada aponta para mais de 750 cv e, sobretudo, mais de 1000 Nm.

O objetivo não é apenas produzir um grande número numa ficha técnica. É conseguir que essa potência possa ser repetidamente utilizada. Setecentos e cinquenta cavalos durante alguns segundos são uma coisa. Volta após volta, mantendo temperaturas, pressões e fiabilidade dentro das margens previstas, são engenharia.

Motor V6 Ford Performance do Adamastor Furia
Compartimento mecânico do Adamastor Furia com o V6 3,5 litros biturbo de origem Ford Performance, instalado longitudinalmente atrás do habitáculo.
Fotografia: Adamastor Automotive — Fonte oficial

1050 kg: a obsessão pelo que não está lá

A filosofia de leveza conduz a um valor atualmente publicado de 1050 kg a seco, sem o associar de forma inequívoca a Road ou Race.

Há menos massa para acelerar, travar e obrigar os pneus a mudar de direção. Tomando apenas os 750 cv mínimos anunciados, o Furia fica abaixo de 1,40 kg/cv e acima de 714 cv por tonelada de massa a seco. Como a potência é anunciada como superior a 750 cv, 714 cv/t é um mínimo derivado, não o máximo real.

Do computador para Portimão — e de Portimão para a estrada

Nenhuma simulação, por sofisticada que seja, transforma por si só ficheiros digitais num supercarro. Era necessário medir. Experimentar. Alterar. E voltar a medir.

No Autódromo Internacional do Algarve, o Development Prototype 001 transformou-se numa estação de aquisição de dados sobre rodas. Mais de 400 canais alimentavam a telemetria, incluindo sensores de altura ao solo e pressão no fundo. Surgiu ainda o valor de 2,4 G de aceleração lateral, confirmando e chegando a superar o previsto em simulador.

Não houve uma volta completa realizada numa tentativa de extrair absolutamente tudo do automóvel. Este era um teste de desenvolvimento, não uma caça ao cronómetro.

Foram realizadas quatro sessões — duas de manhã e duas à tarde — com diferentes afinações e aumento progressivo do ritmo. A Adamastor não reportou problemas de fiabilidade nessa jornada.

Adamastor Furia em testes no Autódromo Internacional do Algarve
Development Prototype 001 durante a fase de testes no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão.
Fotografia: Adamastor Automotive — Fonte oficial

Quando regressou ao AIA para esta fase mais exigente, os testes rodoviários já tinham começado.

O Development Prototype 001 recebeu do IMT a matrícula vermelha 400001 e saiu para a via pública nas imediações do Porto. De repente, o automóvel que enfrentara Portimão tinha outros adversários: semáforos, rotundas, trânsito, refrigeração a baixa velocidade e pavimento imperfeito.

Unidade 400001 do Adamastor Furia em testes rodoviários
O Development Prototype 001 em testes de estrada nas imediações do Porto, na fase da matrícula vermelha de testes 400001.
Fotografia: Adamastor Automotive — Fonte oficial

Portimão podia dizer à Adamastor como o Furia se comportava quando lhe pediam muito. O Porto podia revelar como se comportava quando aparentemente não lhe pediam nada.

Dois anos capazes de mudar uma ficha técnica

Comparar os números anunciados em maio de 2024 com aqueles que a Adamastor publica atualmente é observar o desenvolvimento do Furia através de duas fotografias separadas no tempo.

Característica Apresentação — maio de 2024 Especificação atual
Potência >650 cv >750 cv
Binário >571 Nm >1000 Nm
0–100 km/h ~3,5 s ~2,5 s
0–200 km/h ~10,2 s ~7,0 s
Velocidade máxima Road >300 km/h >300 km/h
Distância entre eixos 2800 mm 2802 mm
Massa 1100 kg a seco, Race 1050 kg a seco, valor atualmente publicado

Não corrigimos a história retroativamente. O automóvel continuou a mudar. Quando uma especificação de 2024 não foi novamente confirmada na configuração atual, é apresentada como uma especificação anunciada em 2024 — nem mais, nem menos.

Caramulo 2025: quando Portugal finalmente o ouviu

Entre 5 e 7 de setembro de 2025, o Adamastor Furia realizou a sua estreia dinâmica perante o público, efetuando várias subidas da Rampa Histórica do Caramulo.

Não era uma maquete. Não era uma promessa. Não era um render. Estava ali. Motor quente. Pneus no asfalto. V6 a ecoar pela serra.

Estreia dinâmica do Adamastor Furia no Caramulo Motorfestival 2025
Adamastor Furia na Rampa Histórica do Caramulo durante a estreia dinâmica perante o público, em setembro de 2025.
Fotografia: Manuel Portugal / Caramulo Motorfestival — Fonte oficial

Caramulo Motorfestival 2026: o regresso já não era uma estreia

Um ano depois, entre 4 e 6 de setembro de 2026, o Furia voltou ao Caramulo como Development Prototype 001. Em 2025 a pergunta era «Será que funciona diante do público?». Em 2026, depois de mais desenvolvimento em Portimão e do início dos testes em estrada, a pergunta passara a ser «Até onde já chegou?».

O Motorfestival reuniu mais de 60 mil visitantes, mais de 2000 automóveis, motos e aviões e mais de 180 automóveis na Rampa Histórica ao longo dos três dias.

Sexta-feira: quando o desenvolvimento mostrou a sua face menos confortável

Na sexta-feira, 4 de setembro, o Furia protagonizou um dos episódios mais comentados do Caramulo Motorfestival 2026. A SPUNIQCARS não se encontrava presente.

O incidente não ocorreu durante uma subida rápida. Aconteceu no regresso ao ponto de partida, durante a descida dos automóveis e a baixa velocidade. Nesse momento, a roda traseira esquerda separou-se do Furia.

A própria Adamastor esclareceu depois a causa: partiram-se os pernos de fixação da roda traseira esquerda. Não existe fundamento para transformar a imagem numa alegação de aperto deficiente; o conjunto separou-se na sequência da rutura dos elementos de fixação.

Uma falha num componente responsável pela fixação de uma roda é séria. A equipa reparou o protótipo durante o próprio evento e o Furia regressou à atividade. Junto à zona reparada apareceu a mensagem «I’m back».

Não transformamos uma falha num triunfo. Também não confundimos um Development Prototype 001 com um automóvel de cliente. Desenvolver significa testar; testar significa descobrir problemas; descobrir um problema permite compreender a sua origem, corrigi-lo e trabalhar para que não se repita.

No Caramulo, o Furia perdeu uma roda. A Adamastor reparou-o. E o Development Prototype 001 continuou a fazer aquilo para que um protótipo existe: desenvolver-se.

Domingo: quando o Furia deixou de ser uma ficha técnica

A SPUNIQCARS não estava presente quando ocorreu o incidente. Estava, porém, no Caramulo no domingo.

Até ali tínhamos estudado o Adamastor Furia. No domingo, finalmente, estávamos diante dele.

Equipa a movimentar o Adamastor Furia entre o público
A equipa movimenta o Furia no meio do público, numa imagem que fixa o ambiente real do Caramulo.
Fotografia: António Ricardo / SPUNIQCARS — Caramulo Motorfestival 2026

Há proporções que uma fotografia não consegue explicar completamente. 4560 mm de comprimento. 2212 mm de largura. 1098 mm de altura. Lidos numa tabela são apenas três números. Diante do automóvel percebe-se o que significam.

O habitáculo parece pousado sobre uma máquina cujo volume foi organizado não apenas em função das pessoas e da mecânica, mas também do percurso que o ar tem de realizar através dela.

Detalhe aerodinâmico da carroçaria do Adamastor Furia
Pormenor das formas e superfícies do Development Prototype 001.
Fotografia: António Ricardo / SPUNIQCARS — Caramulo Motorfestival 2026

Aproximámo-nos. E depois aproximámo-nos ainda mais. Os grandes canais aerodinâmicos, o trabalho do fundo, as superfícies de carbono e os elementos que numa fotografia oficial parecem simplesmente fazer parte do desenho começam a revelar a sua função.

Roda, travões e suspensão visíveis no Adamastor Furia
Pormenor da roda e sistema de travagem do Adamastor Furia Development Prototype 001.
Fotografia: António Ricardo / SPUNIQCARS — Caramulo Motorfestival 2026

A inscrição na carroçaria identifica diretamente o exemplar fotografado: Development Prototype 001.

Tão perto que só faltava abrir a porta

Estive mesmo junto dele. Perto o suficiente para deixar de olhar apenas para a silhueta extraordinariamente baixa, para a largura, para os enormes canais aerodinâmicos ou para tudo aquilo que o carbono e o trabalho do ar desenharam por fora. Perto o suficiente para espreitar para dentro.

Cockpit do Development Prototype 001 do Adamastor Furia
Cockpit do Development Prototype 001: volante de competição em carbono, display integrado e comandos concentrados no campo de ação do condutor.
Fotografia: António Ricardo / SPUNIQCARS — Caramulo Motorfestival 2026

Importa não confundir aquilo que fotografámos com uma especificação definitiva do Furia Road. O automóvel presente no Caramulo identificava-se na própria carroçaria como Development Prototype 001. Era precisamente isso que estávamos a observar: uma máquina de desenvolvimento.

Interior oficial atual do Adamastor Furia
Interior atualmente apresentado pela Adamastor para o Furia. Esta imagem oficial não deve ser confundida com o cockpit do Development Prototype 001 fotografado pela SPUNIQCARS no Caramulo.
Fotografia: Adamastor Automotive — Fonte oficial

Confesso: fiquei a imaginar-me lá dentro. Não ao volante — esse privilégio pertence a quem está habilitado a explorar um protótipo desta natureza — mas no lugar do passageiro, num eventual co-drive, sentindo a aceleração, ouvindo o motor a poucos centímetros das costas e percebendo através do corpo aquilo que mais de 750 cv, mais de 1000 Nm e 1050 kg de massa seca apenas conseguem sugerir no papel.

“Um dia gostava de andar nisto.”

Não como uma exigência. Nem sequer como uma expectativa. Como um desejo.

Há automóveis que despertam curiosidade. Outros despertam admiração. O Furia despertou vontade de entrar.

Vista traseira do Adamastor Furia
A traseira do Furia deixa particularmente evidente a importância atribuída à gestão aerodinâmica do fundo e do fluxo de ar.
Fotografia: António Ricardo / SPUNIQCARS — Caramulo Motorfestival 2026

Quando o Furia deixou de estar parado

E depois chegou o momento de o vermos fazer aquilo para que foi construído. Mover-se.

Vídeo SPUNIQCARS do Adamastor Furia no YouTube
O Adamastor Furia em movimento no Caramulo Motorfestival 2026. Vídeo: António Ricardo / SPUNIQCARS.

Aqui desaparecem as renderizações. Desaparecem as tabelas. Desaparecem até, por alguns instantes, os números. Fica um automóvel português enfrentando uma estrada portuguesa perante milhares de pessoas.

Guilherme Costa, da Razão Automóvel, conduziu igualmente o Furia durante o evento, concretizando a primeira experiência anunciada de um representante de um meio de comunicação aos comandos do supercarro português.

Um supercarro português sem complexo de inferioridade

O maior elogio que podemos fazer à Adamastor é deixar de perguntar se o Furia é suficientemente bom «para um automóvel português». Essa fasquia é demasiado baixa.

Se pretende cobrar valores de supercarro, produzir em números extremamente limitados e apresentar tecnologia, performance e engenharia ao nível que anuncia, terá de ser avaliado como aquilo que pretende ser: um supercarro. Sem asteriscos patrióticos.

Ainda existem etapas por cumprir: homologação, industrialização e o momento decisivo em que os primeiros exemplares definitivos terão de chegar aos proprietários. Até lá, prudência factual. O Furia ainda é uma história em construção.

O gigante que Portugal decidiu enfrentar

Há uma razão para este automóvel se chamar Adamastor. Em Os Lusíadas, o gigante surge perante os navegadores portugueses como personificação do desconhecido, do perigo e dos limites que aparentemente não deveriam ser ultrapassados.

Séculos depois, o nome regressa associado a outro desafio português. Não atravessar oceanos. Construir um supercarro.

Construir um supercarro é desenvolver uma estrutura, calcular cargas, controlar massas, compreender aerodinâmica e fazer trabalhar suspensão, travões, direção, eletrónica, refrigeração e transmissão como partes do mesmo organismo. É simular, fabricar, testar, partir, corrigir e voltar a testar.

O desafio da Adamastor já não consiste em demonstrar que consegue construir um Furia. Existe um. Anda. Foi testado em circuito. Circula em estrada. Subiu o Caramulo.

O desafio seguinte é conseguir construir o segundo como construiu o primeiro. Depois o terceiro. Depois o décimo.

Um protótipo demonstra capacidade de engenharia. Uma série de automóveis consistentes demonstra capacidade de ser fabricante. É nessa fronteira que a história do Adamastor Furia se encontra agora.

Talvez seja isso que torna o projeto tão importante. Não o facto de ser português, isoladamente, mas o facto de Portugal ter chegado ao ponto de podermos avaliá-lo simplesmente como um supercarro.

Quadro técnico — Adamastor Furia

Característica Especificação / estado documental
Tipologia Supercarro de produção limitada; versões Road e Race previstas
Configuração Motor central-longitudinal; tração traseira
Construção Integralmente em fibra de carbono
Dimensões 4560 × 2212 × 1098 mm
Distância entre eixos 2802 mm atual; 2800 mm anunciados em 2024
Massa a seco 1050 kg, especificação oficial atual
Motor V6 3,5 litros biturbo, Ford Performance
Potência atual >750 cv
Binário atual >1000 Nm
Relação derivada <1,40 kg/cv; >714 cv/t
Transmissão Caixa sequencial identificada no Development Prototype 001; fabricante/modelo e produção não confirmados
Suspensão Duplos triângulos desacoplados; mola helicoidal sobre amortecedor
Travões 2024 378 mm / seis pistões à frente; 356 mm / quatro pistões atrás
Aerodinâmica Efeito de solo e canais Venturi
Downforce anunciado 2024 Road: até 1000 kg a 250 km/h; Race: 1800 kg a 250 km/h
0–100 km/h atual ~2,5 s
0–200 km/h atual ~7,0 s
Velocidade máxima Road >300 km/h
Produção anunciada 60 unidades
Preço anunciado em 2024 ~1,6 milhões de euros + impostos, versão de estrada
Local Perafita, Portugal
Estado no Caramulo Motorfestival 2026 Development Prototype 001

Fontes e créditos

Fontes documentais principais: Adamastor Automotive — páginas institucionais, ficha atual do Furia, história da empresa, tecnologia, testes no Autódromo Internacional do Algarve, testes em estrada e balanço do Caramulo Motorfestival 2026; comunicação de lançamento do Furia, maio de 2024; Caramulo Motorfestival; Razão Automóvel.

Fotografia e vídeo originais: SPUNIQCARS / António Ricardo.

Editor-chefe e testemunho no Caramulo Motorfestival 2026: António Ricardo — SPUNIQCARS.

Investigação, estruturação, desenvolvimento técnico, redação e revisão editorial: Francisco Quântico — assistente de Inteligência Artificial na parceria SPUNIQCARS × Francisco Quântico.

Francisco Quântico é a identidade editorial utilizada pelo assistente de Inteligência Artificial e não corresponde a uma pessoa humana.