Bugatti Chiron — uma arquitetura, muitas personalidades

Chiron original de apresentação, Atlantic Blue e French Racing Blue

Das curvas aos 490 km/h, da alta-costura automóvel ao adeus do W16

A promessa feita em 2021

Em 22 de fevereiro de 2021, a SPUNIQCARS publicou “Bugatti Chiron – a monstruosidade ganha beleza e um novo coração em forma de W16”. Nesse artigo explicámos detalhadamente o ponto de partida: Louis Chiron, a genealogia Bugatti, a forma, a monocoque em fibra de carbono, o W16 de 7.993 cm³ com quatro turbocompressores, a transmissão de dupla embraiagem e sete relações, a tração integral, a gestão térmica e a combinação aparentemente impossível entre 1.500 PS, luxo e utilização real.

Também deixámos uma promessa: as versões especiais seriam tratadas depois. O “depois” chegou — e trouxe consigo algo mais interessante do que uma lista de pinturas raras.

O Chiron original estabeleceu uma plataforma técnica suficientemente ampla para conter contradições. Podia ser civilizado a baixa velocidade e devastador quando os quatro turbos enchiam os 16 cilindros; podia envolver os ocupantes em couro e alumínio polido e, pouco depois, transformar ar, combustível e aderência numa demonstração de física aplicada. A partir dessa base, a Bugatti perguntou repetidamente: e se deslocarmos o centro de gravidade conceptual deste automóvel?

Primeiro, aumentou a precisão sem sacrificar o conforto. Depois, colocou a agilidade acima da velocidade máxima. Em paralelo, perseguiu a eficiência longitudinal até atravessar uma fronteira que durante décadas parecera absurda. Mais tarde, converteu a velocidade extrema num grand tourer mais completo, transformou património histórico em séries limitadas e elevou a personalização ao nível de obra encomendada. No fim, escreveu o número 500 na carroçaria do último exemplar.

Não recontaremos aqui extensamente aquilo que o artigo de 2021 já estabeleceu. Este texto começa onde esse terminou: com o Chiron pronto e a arquitetura W16 prestes a descobrir quantas personalidades conseguia suportar.

Chiron original de apresentação, Atlantic Blue e French Racing Blue
O ponto de partida: o Chiron apresentado em Genebra em 2016 estabeleceu a arquitetura sobre a qual a Bugatti construiria uma família inteira de extremos. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Antes dos nomes: a taxonomia que evita confusões

Nem tudo o que utiliza componentes, motor ou conhecimento desenvolvido para o Chiron é uma “versão especial do Chiron”. Para manter rigor editorial, esta genealogia separa quatro categorias:

  • Evoluções fundamentais: Chiron Sport, Pur Sport, Super Sport, Super Sport 300+ e Profilée. Embora construído num único exemplar, o Profilée é aqui tratado editorialmente como derivação técnica da família — e não como simples one-off decorativo — porque foi concebido como potencial série, plenamente desenvolvido e homologado individualmente pela Bugatti.
  • Edições especiais Chiron: séries limitadas que mantêm a especificação mecânica da base escolhida, mas acrescentam um programa histórico, cromático e artesanal coerente: “110 ans Bugatti”, Edition “Chiron Noire”, “Les Légendes du Ciel” e L’Ébé.
  • Sur Mesure e exemplares únicos: encomendas com intervenção criativa extraordinária, incluindo antecedentes anteriores à formalização do programa em dezembro de 2021.
  • Modelos parentes, mas autónomos: Divo, Centodieci e La Voiture Noire. Partilham ADN técnico profundo com o Chiron/W16, mas a própria Bugatti coloca-os no domínio do coachbuilding moderno — “few-off” ou “one-off” — e não entre as simples variantes Chiron.

Esta distinção não é preciosismo semântico. Uma afinação de amortecedores e diferenciais muda o comportamento; uma carroçaria integralmente nova muda a relação do automóvel com o ar; um programa Sur Mesure muda a relação do cliente com o objeto; um Divo ou um Centodieci muda o próprio estatuto do projeto.

A árvore genealógica técnica

O tronco é o Chiron de 2016. O primeiro ramo, Chiron Sport, nasce em 2018 para obter maior precisão. Desse trabalho deriva a lógica que culmina no Pur Sport de 2020, radicalmente orientado para dinâmica lateral, e no Profilée, concebido como interpretação mais elegante e menos extrema dessa mesma filosofia.

O segundo grande ramo nasce do programa de velocidade de 2019. O veículo de pré-produção que alcançou 490,484 km/h deu origem à série Super Sport 300+; a experiência de aerodinâmica Longtail, motor de 1.600 PS, pneus e estabilidade foi depois convertida no Super Sport de 2021, um grand tourer de 440 km/h mais abrangente.

Em redor destes dois ramos técnicos cresceram as séries comemorativas e a personalização: primeiro como encomendas extraordinárias, depois sob a estrutura formal Bugatti Sur Mesure. A árvore termina no L’Ultime, simultaneamente Super Sport, Sur Mesure, Chiron n.º 500 e síntese visual de oito anos de história.

I — EVOLUÇÕES FUNDAMENTAIS DA FAMÍLIA CHIRON

Chiron Sport: a primeira afinação séria

Apresentado no 88.º Salão Automóvel Internacional de Genebra, em 6 de março de 2018, o Chiron Sport respondeu a um pedido muito específico: clientes que queriam sentir o automóvel mais vivo em estradas sinuosas e pistas de handling, sem perder o conforto, a facilidade de utilização nem a velocidade longitudinal do Chiron original.

Por isso, a Bugatti não aumentou a potência. O W16 manteve 1.500 PS e 1.600 Nm; a caixa de dupla embraiagem com sete relações, a tração integral e as prestações declaradas permaneceram essencialmente iguais. A mudança estava na forma como o automóvel recebia, distribuía e comunicava as forças.

O pacote “Dynamic Handling” introduziu uma estratégia de controlo dos amortecedores que, no modo Handling, os tornava em média 10% mais firmes. A direção recebeu nova calibração. O diferencial traseiro foi otimizado e surgiu o Dynamic Torque Vectoring, capaz de distribuir binário individualmente entre as rodas de cada lado para melhorar a entrada e a rotação em curva; ao contrário da afinação mais rígida dos amortecedores, esta função atuava em todos os modos de condução.

A redução aproximada de 18 kg resultou de várias intervenções pequenas e inteligentes: novas jantes mais leves; estabilizador, cobertura do intercooler e braços dos limpa-para-brisas em fibra de carbono; vidro traseiro aligeirado; e defletor de escape mais leve. Os limpa-para-brisas merecem um parágrafo próprio porque a Bugatti conseguiu transformar até a chuva numa oportunidade de engenharia: os braços em carbono integravam na própria estrutura a flexibilidade normalmente assegurada por articulações, recebiam extremidades de alumínio impressas em 3D e poupavam 1,4 kg, ou 77% face ao conjunto anterior.

No circuito de handling de Nardò, a marca registou uma volta cinco segundos mais rápida do que com o Chiron de base. É um dado de desenvolvimento do fabricante, não um recorde independente; ainda assim, demonstra a natureza da intervenção. O Sport não precisava de ganhar a discussão do velocímetro. Precisava de chegar à corda de uma curva com menos hesitação e sair dela com mais precisão.

Visualmente, identificava-se pelas jantes “Course” e pelo defletor de escape com quatro saídas circulares, em vez das terminações retangulares do Chiron. Elementos interiores em alumínio anodizado preto, inscrições Sport e combinações cromáticas mais assertivas davam-lhe identidade, mas a estética continuava subordinada ao trabalho invisível do chassis.

Chiron Sport, apresentação de 2018
Mesma potência, outra atitude: o Chiron Sport iniciou a fragmentação técnica da família. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Pur Sport: quando 1.500 PS aprendem a procurar curvas

Revelado em 3 de março de 2020, o Pur Sport não foi um Chiron Sport com asa maior. Foi uma reordenação das prioridades do automóvel: menos velocidade máxima, mais aderência, resposta, rotação em curva e aceleração utilizável. A Bugatti ouviu clientes que pediam uma máquina para estradas de montanha, ligações sinuosas e circuitos — não apenas para a rara ocasião em que a linha reta parece não terminar.

O W16 conservou 1.500 PS e 1.600 Nm, mas o regime máximo subiu 200 rpm, para 6.900 rpm. Sobretudo, 80% da transmissão foi revista: conjunto de engrenagens, quatro veios e sete relações foram adaptados, produzindo uma relação global 15% mais curta do que no Chiron Sport. Os saltos entre mudanças diminuíram, o motor permaneceu mais tempo na zona de resposta plena e a elasticidade melhorou 40% face ao Chiron, segundo a Bugatti. A velocidade máxima ficou limitada a 350 km/h — não por falta de potência, mas porque a carga aerodinâmica adicional alterava as exigências estruturais e energéticas.

No chassis, as molas dianteiras ficaram 65% mais firmes e as traseiras 33%; o controlo adaptativo dos amortecedores foi recalibrado; o camber negativo chegou a 2,5 graus; estabilizadores em fibra de carbono reduziram o rolamento. A ligação entre chassis, suspensão e carroçaria tornou-se 130% mais rígida à frente e 77% atrás. O modo Sport+ atrasava a intervenção do controlo de tração em piso seco e circuito, permitindo ao condutor experiente trabalhar com ângulos de deriva maiores sem simplesmente desligar a rede de segurança.

As jantes de magnésio desenvolvidas para o modelo retiravam 16 kg de massas não suspensas. Podiam receber lâminas aerodinâmicas periféricas que extraíam ar da roda e o conduziam longitudinalmente, reduzindo turbulência e melhorando ventilação. Placas de suporte das pastilhas em titânio poupavam mais 2 kg; discos revistos retiravam outro quilograma. A redução total anunciada era de 50 kg, embora a ficha técnica conservasse 1.995 kg DIN por o Pur Sport não ter sido homologado como variante separada — um exemplo perfeito de como “peso declarado” e “massa efetivamente retirada por engenharia” nem sempre cabem na mesma célula de uma tabela.

Os Michelin Pilot Sport Cup 2 R específicos, 285/30 R20 à frente e 355/25 R21 atrás, usavam construção e mistura orientadas para aderência, elevando em 10% a aceleração lateral segundo a marca. Na ficha técnica mais recente, o Pur Sport atinge 1,6 g em modo Handling, acelera de 0 a 100 km/h em 2,3 s, a 200 em 5,5 s e a 300 em 12,4 s.

A aerodinâmica completou a transformação. Um splitter dianteiro muito avançado, tomadas maiores, extração otimizada nas cavas das rodas, carroçaria mais baixa, enorme difusor e asa traseira fixa com 1,90 m equilibravam carga nos dois eixos. Eliminar o mecanismo hidráulico da asa poupou 10 kg. A saída de escape em titânio impresso em 3D permitia paredes extremamente finas e elevada resistência térmica. No interior, Alcantara, alumínio anodizado preto, titânio e fibra de carbono substituíam parte da exuberância tátil por maior aderência e menor massa.

O Pur Sport foi limitado a 60 unidades, com produção prevista a partir do segundo semestre de 2020. A Bugatti divulgou o limite e o início do programa, mas não publicou uma decomposição final, exemplar a exemplar, que permita afirmar quantos foram efetivamente construídos; essa distinção fica preservada.

Chiron Pur Sport em estrada, vista dianteira a três quartos
O Pur Sport sacrificou velocidade máxima para tornar o Chiron mais imediato, previsível e comunicativo. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.
Chiron Pur Sport: asa fixa, difusor e escape
A traseira do Pur Sport é uma declaração funcional: carga aerodinâmica, extração e redução de massa. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.
Chiron Pur Sport: jante de magnésio e pneu em contexto
Dezasseis quilogramas retirados nas rodas alteram muito mais do que uma linha na balança: reduzem massas não suspensas e ajudam o pneu a seguir o asfalto. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Profilée: o Pur Sport que vestiu um fato de gala

O Profilée exige uma classificação cuidadosa. É único, mas não nasceu como simples encomenda decorativa. Em 2020, alguns clientes pediram um Chiron que conservasse a resposta e a aceleração do Pur Sport com uma forma menos radical. A Bugatti iniciou o desenvolvimento no outono desse ano, construiu um veículo de pré-série, completou ensaios e padrões de qualidade e obteve uma homologação individual europeia. Entretanto, todos os 500 lugares de produção do Chiron ficaram atribuídos. O projeto, que poderia ter sido uma série, tornou-se uma única peça.

É por isso que a SPUNIQCARS o integra entre as evoluções fundamentais: a raridade foi consequência do calendário industrial, não a razão técnica da sua existência.

A asa de 1,90 m desapareceu. No seu lugar surgiu uma cauda fixa, arqueada e elegante, inspirada no perfil traseiro do Type 46 de Jean Bugatti — origem do nome Profilée. A peça cumpria duas funções: produzia carga e estabilidade até 380 km/h e criava depressão para extrair ar quente do compartimento do motor através de dois túneis internos na asa de carbono resistente a alta temperatura. À frente, entradas mais largas e grelha em ferradura ampliada aumentavam o ar de refrigeração; um splitter revisto trabalhava com o fundo esculpido para equilibrar carga e caudal.

O W16 de 1.500 PS e a caixa com relação global 15% mais curta permaneciam próximos do Pur Sport. O 0–100 km/h demorava 2,3 s, o 0–200 km/h 5,5 s e a velocidade máxima subia dos 350 do Pur Sport para 380 km/h. As molas eram 10% mais firmes do que as do Chiron Sport, com distribuição mais orientada para a frente, e o eixo traseiro recebia 50% mais camber negativo.

Argent Atlantique, criado exclusivamente para este automóvel, cobria a parte superior; a zona inferior mostrava fibra de carbono tingida Bleu Royal Carbon. As jantes próprias, concebidas, produzidas e testadas para o Profilée, usavam a tonalidade Le Patron. No habitáculo surgiu outra estreia na família: couro entrançado no tablier, painéis de porta e consola, elaborado com mais de 2.500 metros de tiras. Bancos Comfort em Gris Rafale e Deep Blue lembravam que este era o ponto de equilíbrio entre a tensão do Pur Sport e a elegância do Chiron inicial.

Leiloado pela RM Sotheby’s em Paris, em 1 de fevereiro de 2023, o Profilée ficou como uma hipótese histórica tornada automóvel: o ramo que a Bugatti concebeu, desenvolveu e homologou, mas para o qual já não havia espaço na árvore de 500 exemplares.

Chiron Profilée em perfil, com cauda fixa
Concebido como série e condenado a ser único pelo esgotamento dos 500 lugares, o Profilée é a ponte entre Pur Sport e elegância. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Super Sport 300+: quando 300 mph deixaram de ser ficção

O programa, antes da edição

O acontecimento ocorreu primeiro; a série limitada veio depois. Esta ordem é essencial para não transformar marketing em engenharia retroativa.

Em 2 de agosto de 2019, Andy Wallace — vencedor de Le Mans e piloto de testes Bugatti — conduziu em Ehra-Lessien um veículo de pré-produção de um derivado Chiron preparado pela equipa liderada por Stefan Ellrott. O automóvel não era um Chiron normal deslimitado, nem ainda um dos 30 Super Sport 300+ de cliente. Era o instrumento de um programa específico de velocidade.

Wallace aumentou progressivamente a velocidade a partir de 300 km/h, em incrementos de 50 km/h, verificando equilíbrio entre sustentação e carga. Depois de uma volta de condicionamento, saiu da curva norte a 200 km/h, manteve o acelerador a fundo durante cerca de 70 segundos ao longo da reta de 8,8 km e atingiu 490,484 km/h — 304,773 mph — antes de reduzir para 200 km/h nos dois quilómetros disponíveis antes da curva sul. A 136 metros por segundo, a paisagem já não passa: é substituída.

Ehra-Lessien foi escolhida por segurança. A pista de 21 km, a cerca de 50 m acima do nível do mar, tem barreiras e equipas de emergência nos dois extremos. A baixa altitude aumenta a densidade do ar e, portanto, o arrasto; antes da tentativa, o asfalto foi limpo com tapetes especiais para remover pedras e detritos.

Uma caixa GPS selada registou a passagem e a SGS-TÜV Saar emitiu o certificado. A Bugatti descreveu o resultado como novo recorde de velocidade certificado pela TÜV e como a primeira vez que um construtor de série atravessava as 300 mph.

Há, contudo, uma precisão indispensável: a velocidade foi obtida num único sentido. As regras tradicionalmente usadas pelo Guinness para recordes de velocidade de automóveis de produção exigem duas passagens em sentidos opostos, na mesma estrada e dentro de 60 minutos, usando a média. Logo, 490,484 km/h é uma velocidade máxima medida e certificada na tentativa Bugatti, historicamente incontornável, mas não um recorde Guinness convencional de média bidirecional. As duas afirmações podem coexistir sem diminuírem o feito — basta não pedir a uma que finja ser a outra.

O automóvel da tentativa

A segurança recebeu cintos de seis pontos e uma célula adicional. A Dallara apoiou o trabalho aerodinâmico e estrutural; a Michelin reforçou as cintas dos Pilot Sport Cup 2 de alta velocidade, mantendo-os homologados para estrada. A 490 km/h, cada pneu rodava até 4.100 vezes por minuto e suportava solicitações declaradas de 5.300 g. Foram ensaiados em bancada até 511 km/h e radiografados individualmente antes da montagem.

O W16 evoluiu para 1.600 PS. A carroçaria Longtail prolongou a traseira em cerca de 25 cm, mantendo o escoamento laminar ligado à superfície durante mais tempo e reduzindo a zona de separação aerodinâmica em mais de 40%. Air curtains orientavam pressão das tomadas dianteiras para as laterais; saídas nas cavas e atrás das rodas dianteiras aliviavam pressão e criavam ligeiro apoio; a nova organização dos escapes libertava o difusor central, permitindo gerar apoio com menor dependência da asa — e, por isso, menos arrasto no modo de velocidade máxima.

Dos 490,484 km/h aos 30 automóveis de cliente

Em 9 de setembro de 2019, nas celebrações dos 110 anos da Bugatti em Molsheim, surgiu a edição Chiron Super Sport 300+, visualmente baseada no automóvel da tentativa e limitada a 30 unidades. A formulação oficial é reveladora: os automóveis de cliente derivavam do projeto recordista, mas não eram simplesmente o mesmo protótipo com matrícula.

Receberam desenvolvimento adicional durante dois anos. Quatro pré-séries Super Sport 300+ e quatro Pur Sport percorreram mais de 20.000 km em quatro semanas em Nardò, com 37 técnicos e nove gigabytes de dados apenas para calibração da unidade de controlo do motor. Foram trabalhados novos componentes térmicos e de transmissão, gestão térmica do motor e caixa, e software do motor, caixa, cadeia cinemática e turbocompressores.

Nos automóveis entregues, a velocidade máxima ficou eletronicamente limitada a 440 km/h. O acabamento padrão combinava fibra de carbono exposta Jet Black, faixa central Jet Orange, jantes de magnésio Nocturne, emblema Bugatti em prata genuína e esmalte preto, e habitáculo Beluga Black em carbono, couro e Alcantara com apontamentos laranja. Os primeiros oito ficaram prontos em setembro de 2021; o trigésimo e último foi entregue em julho de 2022. Aqui, ao contrário de várias outras séries, produção prevista e realizada coincidem documentalmente: 30 de 30.

O Super Sport 300+ deve, portanto, ser lido em três níveis separados:

  1. o programa de engenharia de alta velocidade;
  2. o veículo de pré-produção que atingiu 490,484 km/h, equipado com segurança adicional;
  3. os 30 automóveis de cliente, desenvolvidos a partir desse conhecimento e limitados a 440 km/h.

Misturar estes níveis produz títulos fáceis. Separá-los produz história automóvel.

Ficha técnica — Super Sport 300+ de cliente

Esta ficha descreve a especificação de produção entregue aos clientes, não o veículo de pré-produção da passagem de 490,484 km/h. Os valores quantificados seguem a ficha técnica oficial Bugatti mais recente; a descrição estrutural acompanha a documentação institucional da marca.

ParâmetroEspecificação oficial
Estrutura e carroçariaMonocoque e carroçaria em fibra de carbono; configuração Longtail
Dimensões (C × L × A)4.733 × 2.183 × 1.212 mm; largura incluindo espelhos
Distância entre eixos; vias F/T2.711 mm; 1.749/1.662 mm
Massa DIN; depósito1.995 kg*; 100 l
MotorW16, 7.993 cm³, quatro válvulas/cilindro, quatro turbocompressores e sobrealimentação em dois estágios com intercooling água/ar
Potência; binário1.177 kW/1.600 PS entre 7.050–7.100 rpm; 1.600 Nm entre 2.250–7.000 rpm
Transmissão e traçãoDSG de dupla embraiagem, 7 relações; tração integral permanente; diferencial longitudinal dianteiro controlado BorgWarner e bloqueio transversal traseiro controlado
SuspensãoDuplos triângulos à frente e atrás; programas Lift, EB, Autobahn, Handling e Top Speed
Jantes F/T10J × 20 ET55; 13,5J × 21 ET71,5
Pneus F/TMichelin 285/30 R20 ZR (Y) BG2; 355/25 R21 ZR (Y) BG2
TravõesDiscos de 420 mm F/400 mm T; pinças de 8 pistões F/6 pistões T
Aerodinâmica, Cd0,38 EB; 0,39 Autobahn; 0,41 Handling; 0,35 Top Speed; 0,59 airbrake
Coeficiente de sustentação, Handling F/T-0,06/-0,20
Ângulo da asa10° Autobahn; 15° Handling; 1° Top Speed; 39° airbrake
Velocidade máxima440 km/h em Top Speed; 380 km/h nos modos EB/Autobahn/Handling
Aceleração0–100: 2,4 s; 0–200: 5,8 s; 0–300: 12,1 s; 0–400: 28,6 s
Aceleração e travagem0–100–0: 4,8 s; 0–200–0: 10,4 s; 0–300–0: 18,9 s; 0–400–0: 39,2 s
Distâncias de travagem100–0: 33 m; 200–0: 124 m; 300–0: 270 m; 400–0: 520 m
Velocidade máxima por relação1.ª 100; 2.ª 160; 3.ª 210; 4.ª 280; 5.ª 340; 6.ª 415; 7.ª 440 km/h (limite)

* A Bugatti declarou uma redução construtiva de 23 kg, mas manteve na ficha 1.995 kg DIN por o Super Sport 300+ não ter sido homologado como variante separada.

Andy Wallace no programa de velocidade de Ehra-Lessien
2 de agosto de 2019: Andy Wallace levou um derivado Chiron de pré-produção a 490,484 km/h numa passagem certificada pela SGS-TÜV Saar. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.
Derivado Chiron de pré-produção: detalhe da carroçaria Longtail
Mais cerca de 25 cm de traseira prolongaram o escoamento e reduziram em mais de 40% a zona de separação aerodinâmica. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.
Primeiros oito Chiron Super Sport 300+ de cliente
Os automóveis de produção foram limitados a 440 km/h; os 30 exemplares ficaram entregues em julho de 2022. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Super Sport: converter o recorde num grand tourer

Apresentado em junho de 2021 e mostrado publicamente no Milano Monza Motor Show, o Chiron Super Sport não foi apenas uma versão menos laranja do 300+. A Bugatti utilizou o conhecimento do programa de recorde para criar um automóvel de 440 km/h que combinasse estabilidade longitudinal, conforto, luxo e previsibilidade em utilização mais ampla.

A carroçaria manteve o conceito Longtail e o prolongamento aproximado de 25 cm. A secção do difusor cresceu, a aresta traseira subiu e a superfície de separação na retaguarda diminuiu 44%. Os escapes passaram para as laterais, dispostos verticalmente, libertando o difusor. No modo Top Speed, a asa podia recolher mais, porque o fundo gerava maior parcela da carga com menos resistência.

À frente, air curtains mantinham o escoamento junto às laterais e ajudavam a alimentação dos radiadores. Nove aberturas sobre cada guarda-lamas, homenagem funcional ao EB110 Super Sport, libertavam pressão das cavas; a Bugatti quantificou entre 20 e 30 kg de apoio adicional à frente a 380 km/h noutro documento técnico do programa. As entradas também aumentavam o caudal de refrigeração dos radiadores em cerca de 8%.

O W16 foi profundamente revisto para 1.177 kW/1.600 PS. Turbocompressores maiores receberam rodas de compressor mais eficientes; bomba de óleo, cabeça do motor, comando de válvulas, caixa e embraiagem foram modificados. O limite subiu 300 rpm, para 7.100 rpm. Segundo a ficha técnica oficial mais recente — critério editorial adotado quando comunicados anteriores divergem — os 1.600 Nm estão disponíveis entre 2.250 e 7.000 rpm. A sétima relação é 3,6% mais longa, a pressão de sobrealimentação atinge 2,8 bar e a interrupção de pressão numa passagem de caixa dura apenas cerca de 0,3 s.

O chassis foi recalibrado para alta velocidade. Molas mais firmes, direção e amortecimento mais ligados à carroçaria e controlo eletrónico capaz de ajustar parâmetros em seis milissegundos procuravam manter o eixo traseiro calmo e a direção previsível em curvas longas muito rápidas. As molas traseiras ficaram 7% mais firmes do que as do Chiron, segundo a documentação de desenvolvimento. O objetivo era quase paradoxal: tornar 440 km/h menos dramáticos para o condutor, embora a física continuasse, naturalmente, sem sentido de humor.

Os Michelin Pilot Sport Cup 2 específicos privilegiavam rigidez, suavidade e resistência a velocidade máxima, em oposição aos Cup 2 R de aderência lateral do Pur Sport. Eram testados a mais de 500 km/h e radiografados. Novas jantes de alumínio poupavam cerca de 4 kg por conjunto; as opcionais de magnésio, oriundas do Pur Sport, reduziam cerca de 16 kg relativamente às do Chiron.

A redução construtiva anunciada foi de 23 kg, embora a ficha técnica conservasse 1.995 kg DIN pela ausência de homologação separada como variante. O Super Sport atinge 0–100 km/h em 2,4 s, 200 em 5,8 s, 300 em 12,1 s e 400 em 28,6 s; a velocidade máxima está limitada a 440 km/h. A produção integrou o total de 500 Chiron, sem limite autónomo oficialmente divulgado.

Pur Sport e Super Sport: duas respostas opostas

O contraste central da família não é entre 1.500 e 1.600 PS. É entre a forma de gastar energia.

O Pur Sport encurta relações, aumenta carga, escolhe pneus de aderência, aceita 350 km/h como teto e procura reduzir massa não suspensa. Quer mudança de direção, leitura do asfalto e aceleração à saída da curva.

O Super Sport alonga a carroçaria e a sétima relação, reduz arrasto, controla pressão nas cavas, seleciona pneus de estabilidade e trabalha direção e suspensão para serenidade acima de 400 km/h. Quer manter o ar ligado à carroçaria e o condutor ligado à intenção.

Um prefere que a estrada dobre; o outro prefere que ela continue. Ambos provam que a arquitetura Chiron não era uma personalidade rígida, mas uma linguagem técnica capaz de falar dialetos opostos.

Pur Sport e Super Sport 300+ reunidos em Nardò
Dois extremos da mesma arquitetura: dinâmica lateral e desempenho longitudinal reunidos no mesmo centro de testes. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.
Chiron Super Sport: vista superior/traseira e aerodinâmica Longtail
A cauda Longtail, os escapes verticais e o difusor ampliado permitem gerar estabilidade com menor dependência da asa. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.
Motor Bugatti W16
O Super Sport alargou a potência e o binário até às 7.000 rpm através de turbos, lubrificação, cabeça, comando, caixa e embraiagem revistos. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Tabela comparativa — evolução técnica principal

ParâmetroChironChiron SportChiron Pur SportChiron ProfiléeChiron SS 300+Chiron Super Sport
ApresentaçãoGenebra, 2016Genebra, 06/03/201803/03/202021/12/2022Molsheim, 09/09/2019Junho de 2021; Milano Monza
MissãoEquilíbrio entre velocidade, luxo e utilizaçãoMaior precisão e agilidadeMáxima dinâmica lateralAgilidade Pur Sport com elegânciaCelebrar e transferir o programa das 300 mphAlta velocidade com conforto de grand tourer
Comprimento oficial4.544 mm4.544 mm4.647 mmNão divulgado separadamente4.733 mm4.733 mm
Largura oficial2.038 mm2.038 mm2.162 mm, incl. espelhosNão divulgada2.183 mm, incl. espelhos2.183 mm, incl. espelhos
Altura1.212 mm1.212 mm1.212 mmNão divulgada1.212 mm1.212 mm
Distância entre eixos2.711 mm2.711 mm2.711 mmNão divulgada2.711 mm2.711 mm
Vias F/T1.749/1.661 mm1.749/1.661 mm1.776/1.695 mmNão divulgadas1.749/1.662 mm1.749/1.662 mm
Massa DIN na ficha1.995 kg1.977 kg1.995 kg*Não divulgada1.995 kg*1.995 kg*
Redução construtiva anunciada18 kg50 kgNão divulgada23 kg23 kg
Depósito100 l100 l100 lNão divulgado separadamente100 l100 l
MotorW16, 7.993 cm³, 4 turbos, 2 estágiosIgualIgual; limite +200 rpmEspecificação Pur SportW16 profundamente revistoW16 profundamente revisto
Potência1.500 PS/1.103 kW1.500 PS/1.103 kW1.500 PS/1.103 kW1.500 PS/1.103 kW1.600 PS/1.177 kW1.600 PS/1.177 kW
Binário1.600 Nm, 2.000–6.000 rpm1.600 Nm, 2.000–6.000 rpm1.600 Nm, 2.000–6.000 rpm1.600 Nm1.600 Nm, 2.250–7.000 rpm1.600 Nm, 2.250–7.000 rpm
Transmissão/traçãoDSG 7, integral permanenteIgual; diferencial/torque vectoring revistos80% revista; relação global -15%Relação global -15% vs. SportDSG 7 revista; 7.ª longaDSG 7; 7.ª +3,6%
Suspensão/chassisDuplos triângulos; amortecimento adaptativoAmortecedores +10% em Handling; direção revistaMolas +65% F/+33% T; camber -2,5°; ligações reforçadasMolas +10% vs. Sport; +50% camber neg. atrásAfinação e estabilidade de alta velocidadeMolas/direção/amortecimento revistos; controlo em 6 ms
Jantes F/T10J×20 ET55; 13,5J×21 ET71,5Mesmas medidas; desenho CourseMesmas medidas; magnésioLe Patron; medidas não divulgadas separadamenteMesmas medidas; magnésio NocturneMesmas medidas; alumínio ou magnésio opcional
Pneus F/TMichelin 285/30 R20; 355/25 R21Mesmas medidasCup 2 R, 285/30 R20; 355/25 R21Não divulgados separadamenteCup 2 BG2, mesmas medidasCup 2 BG2, mesmas medidas
TravõesDiscos 420/400 mm; pinças 8/6 pistõesMesmos diâmetros/pistõesMesmos diâmetros/pistões; componentes aligeiradosNão divulgados separadamenteMesmos diâmetros/pistõesMesmos diâmetros/pistões
Aerodinâmica-chaveAsa ativa/função airbrakePerfil dos limpa-para-brisas otimizadoAsa fixa 1,90 m, splitter e difusor; mais cargaCauda fixa com extração térmicaLongtail +25 cm; separação -40%Longtail; superfície de fuga -44%; nove saídas/guarda-lamas
Cd por modo0,40 EB; 0,39 Autobahn; 0,41 Handling; 0,36 Top Speed; 0,60 airbrakeIgual ao Chiron0,38 fixoNão divulgado0,38 EB; 0,39 Autobahn; 0,41 Handling; 0,35 Top Speed; 0,59 airbrakeIgual ao SS 300+
0–100 km/h2,4 s2,4 s2,3 s2,3 s2,4 s**2,4 s
0–200 km/h6,1 s6,1 s5,5 s5,5 s5,8 s**5,8 s
0–300 km/h13,1 s13,1 s12,4 sNão divulgado12,1 s**12,1 s
0–400 km/h32,6 s32,6 s28,6 s**28,6 s
Velocidade máxima420 km/h420 km/h350 km/h380 km/h440 km/h clientes; 490,484 km/h no protótipo de tentativa440 km/h
ProduçãoParte do total de 500Sem limite autónomo divulgadoLimitada a 60; total realizado não discriminado130 produzidos e entreguesSem limite autónomo divulgado; parte dos 500

* As fichas do Pur Sport, Super Sport 300+ e Super Sport mantêm a massa DIN do Chiron de base porque não foram homologados separadamente para esse valor; as reduções construtivas são afirmações oficiais da Bugatti. A ficha do Sport publica 1.977 kg, coincidindo com os 18 kg retirados. ** Valores da ficha técnica oficial mais recente do Super Sport 300+, distintos da velocidade máxima obtida pelo veículo de pré-produção da tentativa de 2019.

II — EDIÇÕES ESPECIAIS E SÉRIES LIMITADAS CHIRON

Uma edição especial genuína deve acrescentar significado, não apenas opções caras alinhadas na mesma fatura. Na família Chiron, a Bugatti utilizou séries limitadas para falar de França, da aviação, do negro absoluto associado ao Atlantic e de L’Ébé Bugatti. A mecânica permaneceu, em regra, a da versão-base; o trabalho concentrou-se na narrativa histórica, nos materiais e no artesanato.

Chiron Sport “110 ans Bugatti”: França nos dois sentidos

Revelado em 7 de fevereiro de 2019 e limitado a 20 automóveis, o “110 ans Bugatti” assinalou os 110 anos da fundação da marca e reafirmou Molsheim como centro da sua identidade francesa. A homenagem não se limitou a aplicar o tricolor onde houvesse espaço.

Azul, branco e vermelho surgiam nos espelhos numa orientação deliberadamente invertida do lado direito: tal como nos veículos oficiais franceses, o azul fica voltado para a frente nos dois lados. A carroçaria de carbono usava Steel Blue mate atrás e Steel Blue Carbon exposto à frente, estabelecendo uma separação visual entre monocoque/habitáculo e compartimento do motor. A linha C e a grelha, em alumínio, participavam na composição; jantes Nocturne escondiam pinças French Racing Blue.

O Sky View, com dois painéis fixos de vidro laminado e quatro camadas intermédias, era equipamento de série. No interior, couro Deep Blue, Alcantara, carbono e alumínio recebiam bordados tricolores. Um medalhão de prata maciça com inserções em esmalte, montado sobre carbono na consola, dava à comemoração a materialidade de um objeto de coleção. O W16 conservava 1.500 PS e as prestações do Chiron Sport.

Chiron Sport 110 ans Bugatti: tricolor sob a asa
No lado direito, a bandeira aparece em espelho para manter o azul voltado para a frente, como nos veículos oficiais franceses. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Edition “Chiron Noire”: uma edição, duas interpretações

A nomenclatura oficial precisa de ser mantida: Bugatti Edition “Chiron Noire”, proposta em duas linguagens — Chiron Noire Élégance e Chiron Noire Sportive. A produção anunciada era de 20 veículos no total, não 20 de cada. A especificação podia ser aplicada ao Chiron e, mediante suplemento, ao Chiron Sport.

Apresentada em 29 de novembro de 2019, a edição respondia ao fascínio provocado pela moderna La Voiture Noire revelada meses antes e, por seu intermédio, pelo Type 57 SC Atlantic negro de Jean Bugatti desaparecido no início da Segunda Guerra Mundial.

Na Élégance, a fibra de carbono exposta recebia acabamento brilhante. O Macaron em prata maciça e esmalte preto, a linha C em alumínio polido mate e apontamentos metálicos interrompiam a superfície negra. Na Sportive, carbono, linha C, jantes, splitter, grelha, componentes da tampa do motor e quatro ponteiras de titânio mergulhavam num negro mate mais fechado; interruptores, comandos e puxadores interiores acompanhavam o tratamento.

O W16 continuava a produzir 1.500 PS e 1.600 Nm. A distinção entre Élégance e Sportive era, por isso, de expressão: uma usava o brilho para revelar a trama do carbono; a outra absorvia a luz como se o Atlantic perdido tivesse deixado uma sombra permanente em Molsheim.

Chiron Sport “Les Légendes du Ciel”: pilotos entre dois elementos

Anunciado em 24 de novembro de 2020, limitado a 20 unidades e baseado no Chiron Sport, “Les Légendes du Ciel” recuperou uma relação menos conhecida da história Bugatti: vários pilotos da “década de ouro” da marca tinham sido aviadores.

Albert Divo, Robert Benoist e Bartolomeo “Meo” Costantini voaram ao serviço da Força Aérea Francesa; Roland Garros conduziu um Bugatti Type 18. Ettore admirava a aviação, projetou motores aeronáuticos por volta de 1915 e, a partir de 1937, envolveu-se num avião destinado a recordes de velocidade, interrompido pela guerra.

O Gris Serpent mate reinterpretava a pele dos aviões dos anos 1920. Uma faixa branca brilhante atravessava o automóvel e a asa; o tricolor marcava as saias em carbono exposto. A malha da grelha, cortada a laser e embutida em alumínio, desenhava uma formação aérea repetida nas costuras dos bancos. Na traseira, uma moldura de escape em Inconel resistente a alta temperatura era produzida por impressão 3D.

O habitáculo revestido em couro Gaucho evocava as cabinas dos aviões antigos. Nas portas, uma cena desenhada à mão colocava frente a frente um Nieuport 17 e um Bugatti Type 13 — duas máquinas leves, ágeis e dependentes da coragem de quem as comandava. Alumínio “perlée” na consola e no apoio de braço remetia para o acabamento dos carros de competição históricos. Potência e velocidade máxima permaneciam em 1.500 PS e 420 km/h.

Chiron Sport Les Légendes du Ciel, vista superior
A faixa branca e o Gris Serpent ligavam o Chiron Sport à aparência dos aviões da década de 1920. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron L’Ébé: a filha que preservou a voz do pai

Em junho de 2022, a Bugatti apresentou três Chiron L’Ébé — um Chiron e dois Chiron Sport — como os últimos exemplares dessas duas especificações destinados à Europa. Esta micro-série homenageou a filha mais velha de Ettore e Barbara Bugatti, nascida em 1903, autora de “The Story of Bugatti” e guardiã de diários, cartas e memórias fundamentais para compreender o fundador. O próprio nome L’Ébé ocultava as iniciais EB, permitindo-lhe conservar simbolicamente o apelido Bugatti após o casamento.

Fibra de carbono exposta com tonalidade azul servia de fundo a linhas douradas Art Déco inspiradas nas formas do Type 57G Tank. Dourado aparecia no EB, na ferradura, na tampa do W16 e discretamente nas jantes. A assinatura L’Ébé escondia-se sob a asa, nas soleiras e nos encostos de cabeça.

No habitáculo, Silk e Lake Blue invertiam posições entre porta do condutor e porta do passageiro. Cada painel mostrava a evolução visual da marca, dos Grand Prix ao EB110, Veyron e Chiron. A homenagem era particularmente adequada: uma mulher que preservou a narrativa Bugatti tornou-se tema de automóveis que, por sua vez, contavam essa narrativa nas próprias portas.

Chiron L’Ébé em carbono azul e detalhes dourados
Três automóveis encerraram as entregas europeias do Chiron e Chiron Sport, celebrando L’Ébé Bugatti, biógrafa e guardiã da memória de Ettore. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

III — BUGATTI SUR MESURE E EXEMPLARES ÚNICOS

Antes de existir o nome Sur Mesure

A Bugatti formalizou o programa Sur Mesure em 9 de dezembro de 2021. Seria incorreto aplicar retroativamente o selo a todos os projetos anteriores. Mas seria igualmente errado ignorar que o método — diálogo prolongado, cores exclusivas, pintura manual, colaboração entre engenharia e artesanato — já estava a ser desenvolvido.

Chiron “Zebra 1 of 1” — 2019

Encomendado por um cliente do Qatar, o Zebra combinou Titanic Blue e Gunpowder Grey num padrão pintado à mão durante mais de três semanas. A inspiração técnica e visual vinha das linhas de reflexão do Veyron L’Or Blanc, de 2011. Na história da personalização Chiron, representa a passagem da escolha de cores para o desenho irrepetível sobre a própria carroçaria.

Chiron Sport “Alice” — 2021

Encomendado através da H.R. Owen por um marido como presente para a mulher, o Alice introduziu a tonalidade Silk Rosé, combinada com Matt Blanc e aplicada também às jantes. Couro e Alcantara Gris Rafale, bancos Comfort, bordados “Alice” nos encostos e inscrições nas soleiras completavam um exemplar único. A importância não está numa alteração de chassis, mas na demonstração de que um Chiron podia assumir uma identidade pessoal inequívoca antes de Sur Mesure se tornar nome institucional.

Chiron habillé par Hermès — 2021

O empresário e colecionador Manny Khoshbin reservou cedo um lugar de produção, mas prolongou conscientemente o processo durante anos. Duas visitas à Hermès em Paris e centenas de mensagens ligaram as equipas de Molsheim e da casa parisiense.

A cor Craie envolvia quase todo o exterior, incluindo para-choques, malhas, frisos e jantes Classique; apenas o motor exposto, as pinças Italian Red e as soleiras em alumínio interrompiam o monocromatismo. A grelha em ferradura recebia o monograma H. Sob a asa, o motivo “Courbettes”, com cavalos empinados, aludia aos 1.500 PS.

No interior, a Hermès produziu a maior parte dos materiais: couro Craie nos bancos, consola, linha interior, tejadilho, painel traseiro e fechos das portas; couro Ecru desenvolvido pela Bugatti e alcatifa Beige completavam a composição. Era também uma reconexão histórica: antes da Primeira Guerra Mundial, Ettore encomendara selas e artigos de arreios a Émile-Maurice Hermès; em 2008, a relação reaparecera no Veyron Fbg par Hermès.

Bugatti Sur Mesure: personalização torna-se programa

“Sur mesure” significa “feito à medida”. A estrutura formal reuniu designers, engenheiros, pintores, estofadores e especialistas de materiais para acompanhar o cliente desde o conceito até à entrega. Não se tratava apenas de abrir um catálogo mais grosso: técnicas novas podiam ter de ser inventadas, validadas contra calor, radiação, desgaste e tolerâncias aerodinâmicas.

Chiron Pur Sport “Grand Prix” — o primeiro projeto oficial

O primeiro automóvel revelado sob o programa foi um Pur Sport inspirado na vitória de Louis Chiron e Achille Varzi no Grande Prémio de França de 1931, em Montlhéry, num Type 51 com o número 32.

Duas cores exteriores inéditas reinterpretavam os Bugatti de competição das décadas de 1920 e 1930. O “32” foi pintado à mão; um padrão EB em gradação exigiu novas técnicas e prolongou-se nos painéis das portas através de bordado multicamada. “32” e “Grand Prix” reapareciam na consola de alumínio anodizado preto com inscrição prateada, nas soleiras, encostos e luzes de entrada. O primeiro Sur Mesure nasceu, portanto, olhando diretamente para o homem cujo nome o Chiron transportava.

“Vagues de Lumière” — duas carroçarias, dois reflexos

Em abril de 2022, a Bugatti revelou dois projetos. Um Super Sport California Blue recebeu linhas Arancia Mira, jantes de magnésio laranja e o número 38 na grelha. Um Pur Sport em Blue Carbon exposto recebeu linhas Nocturne, tricolores nos terminais da asa e o número 9 em French Racing Blue.

O processo começava com formas bidimensionais adaptadas às superfícies tridimensionais com precisão milimétrica. As linhas eram pintadas à mão em camadas, corrigidas, novamente verificadas e seladas com verniz. Cada esquema demorava aproximadamente cinco semanas. A mesma ideia de luz comportava-se de forma diferente sobre um Pur Sport e um Super Sport porque as superfícies — e, portanto, os reflexos — não eram as mesmas.

Os dois Chiron Vagues de Lumière
Cinco semanas de pintura manual transformaram reflexos de luz em linhas permanentes; cada carroçaria exigiu um padrão próprio. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Super Sport “Golden Era”: desenhar a história sobre o presente

Revelado em agosto de 2023, o Golden Era resultou de dois anos de trabalho e foi descrito pela Bugatti como talvez o projeto de personalização mais exigente que alguma vez realizara.

O cliente, colecionador e admirador do W16, queria celebrar simultaneamente o motor e a história que o tornara possível. A equipa propôs 45 desenhos diretamente sobre a carroçaria: 26 do lado do passageiro, dedicados ao primeiro período da marca — Type 41 Royale e Type 57 SC Atlantic incluídos — e 19 do lado do condutor, seguindo o renascimento desde 1987, do EB110 ao Veyron e Chiron. Uma representação dos 3.712 componentes do W16 integrava a narrativa.

Foi criada a cor Doré, em gradação para uma versão metálica especial de Nocturne Black. Para preservar a autenticidade do traço, os designers recusaram uma imitação digital: desenvolveram um processo que permitia usar lápis reais sobre a pintura. Só os desenhos exteriores consumiram mais de 400 horas.

Dentro, três ícones modernos — EB110, Veyron e Chiron — enfrentavam três históricos — Type 35, Atlantic e Royale — pintados à mão sobre couro com pincel fino e tinta específica. Bordados “Golden Era” e inscrições manuscritas “One-of-One” completavam o automóvel entregue em Monterey.

O Golden Era não é importante por provar que um cliente podia pagar 400 horas de desenho. É importante porque converteu a superfície aerodinâmica de um Super Sport num arquivo cronológico feito à mão, sem permitir que o arquivo comprometesse o automóvel de 440 km/h por baixo dele.

Chiron Super Sport Golden Era em perfil
Quarenta e cinco desenhos aplicados diretamente à carroçaria contam duas eras Bugatti; os exteriores exigiram mais de 400 horas. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Super Sport “57 One of One”: a memória de uma cor

O projeto começou vinte anos antes da entrega. A cliente vira um dos três Type 57 SC Atlantic sobreviventes no Mullin Automotive Museum, em Oxnard, e guardara a recordação do seu azul prateado. Aos 70 anos, o marido ofereceu-lhe a possibilidade de configurar o primeiro Bugatti da sua vida.

Durante um processo superior a um ano, Jascha Straub, responsável pelo Sur Mesure, viajou ao Guggenheim Bilbao, onde o Atlantic estava exposto, levando uma amostra para observar a pintura original sob diferentes luzes. A intenção não era criar “um azul parecido”, mas reproduzir a emoção cromática que a cliente conservara durante duas décadas.

A grelha do Super Sport foi redesenhada com barras verticais polidas e espinha central mais espessa, mantendo os requisitos de arrefecimento e aerodinâmica de um automóvel de 440 km/h. Jantes de cinco raios combinavam cromado e azul; sob a asa, uma silhueta desenhada à mão do Atlantic acompanhava “57” e “One of One”. Couro Gaucho, o Atlantic cosido à mão em Lightning Blue nas portas, o Elefante Dançante de Rembrandt Bugatti nos encostos e as assinaturas de Jean e Rembrandt nas soleiras faziam da homenagem algo mais amplo do que um exercício de estilo.

Chiron Super Sport 57 One of One com o Type 57 SC Atlantic
A equipa viajou até ao Atlantic original para igualar uma tonalidade que a cliente guardava na memória havia vinte anos. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

“L’aura” e “Coup de Foudre”: personalizar depois da entrega

O L’aura foi concebido para uma cliente com Rosso Efesto e linhas Arancia Mira no padrão Vagues de Lumière. Ao acompanhar a criação, o marido decidiu transformar o seu Super Sport já entregue. O nome Coup de Foudre significa simultaneamente “relâmpago” e “amor à primeira vista”; a dupla leitura descrevia as linhas French Racing Blue sobre carbono visível com 10% de tonalidade preta e a origem emocional do pedido.

O automóvel regressou do Tennessee a Molsheim para sete meses de trabalho. Capot, tejadilho, tampa do motor e asa traseira em carbono foram substituídos; o interior foi totalmente retirado; um novo Sky View foi colado à monocoque com as tolerâncias estruturais exigidas. As fibras tiveram de se alinhar entre painéis com precisão milimétrica. Só a adaptação dos recortes bidimensionais das linhas azuis exigiu quatro semanas de trabalho exclusivo de uma pessoa. Painéis de porta e jantes bicolores completaram uma reconstrução de personalidade que provou que, na Bugatti, “entregue” não significava necessariamente “terminado”.

Chiron L’aura e Coup de Foudre
Um nasceu Sur Mesure; o outro regressou a Molsheim e foi desmontado durante sete meses para ganhar uma personalidade correspondente. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Super Sport “Hommage Type 50S”: Le Mans antes das vitórias

O Hommage Type 50S, revelado em fevereiro de 2024, não recorda uma vitória, mas a aprendizagem que a precedeu. Em 1931, a Bugatti estreou uma equipa oficial nas 24 Horas de Le Mans com três Type 50S. O cinco litros de oito cilindros em linha, sobrealimentado e com dupla árvore de cames à cabeça — uma estreia para a marca — produzia cerca de 250 PS. Os carros foram pintados de preto, em provocação ao governo francês que recusara financiamento.

Um pneu falhou a alta velocidade e provocou um acidente fatal; a Bugatti retirou os dois restantes. O chassis 50177, número 5, tornou-se a referência da encomenda moderna.

O Super Sport preto recebeu “5” nas portas, inscrição “Le Mans 1931”, traçado histórico do Circuit de la Sarthe sob a asa e uma grelha de padrão quadrado reinterpretada sem comprometer arrefecimento. O acabamento “perlée” — círculos sobrepostos obtidos por torneamento decorativo — apareceu nas coberturas do motor, consola e proteções laterais. No interior, cenas do Type 50S foram aplicadas manualmente nas portas e “Le Mans 1931” cosido nos encostos.

É uma homenagem madura porque aceita a parte dolorosa da genealogia. A vitória de 1937 com o Type 57G Tank não surgiu no vazio; seis anos antes, a marca aprendera em Le Mans que potência, velocidade e pneus formam uma equação que não perdoa aproximações.

Chiron Super Sport Hommage Type 50S com o Type 50S histórico
O número 5 recorda o Type 50S de 1931, primeiro passo oficial da Bugatti em Le Mans e capítulo essencial antes das vitórias. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Super Sport “55 1 of 1”: o primeiro Super Sport regressa

Apresentado em maio de 2024 para um cliente ligado ao parceiro Bugatti no Dubai, o “55 1 of 1” homenageou o Type 55 Super Sport. O automóvel de Jean Bugatti levou às estradas um oito cilindros em linha de 2,3 litros derivado do Type 51, combinando tecnologia de competição, carroçaria de dois lugares e cerca de 180 km/h. Foram construídos apenas 38.

O preto e amarelo — combinação apreciada por Ettore — e a linha central escura do Type 55 foram reinterpretados no Chiron. Um padrão “55” pintado à mão desaparecia sobre faróis e guarda-lamas, escurecendo visualmente essas zonas à distância e aproximando a frente da forma estreita e fuselada do histórico. Jantes pretas de dez raios com EB amarelo, “55 1 of 1” sob a asa, couro preto, inscrições bordadas e assinatura de Jean Bugatti completavam a peça.

O elo é mais profundo do que a cor. O Type 55 inaugurou na Bugatti a ideia Super Sport: tecnologia de competição civilizada para viajar depressa. O Chiron Super Sport levou a mesma fórmula de 180 para 440 km/h — um crescimento que talvez Ettore considerasse razoável, desde que ninguém lhe mostrasse a conta dos pneus.

Chiron Super Sport 55 1 of 1 com o Type 55
O primeiro Super Sport da história Bugatti empresta cor, proporção visual e filosofia ao Super Sport que encerra a era Chiron. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

Chiron Super Sport “L’Ultime”: o n.º 500 fecha o círculo

Em 30 de maio de 2024, a Bugatti anunciou a conclusão do Chiron n.º 500. Era um Super Sport e chamava-se L’Ultime.

O desenho regressou ao primeiro Chiron de Genebra, apresentado em 2016 em Atlantic Blue e French Racing Blue, separados pela linha C de alumínio polido. No último automóvel, as duas cores fundiam-se numa gradação e passavam também às jantes. Um Macaron azul específico ocupava a grelha, cuja malha recebeu faixas centradas.

Sobre a carroçaria, inscrições manuscritas enumeravam os lugares e acontecimentos que construíram a narrativa Chiron: estreia em Genebra, Chantilly, ensaios em Paul Ricard, Ehra-Lessien e as 300 mph, Molsheim, Château Saint Jean e Cape Canaveral, onde clientes puderam experimentar velocidade máxima. O efeito “bullet speed” fazia as palavras desvanecerem como uma imagem vista em movimento.

O número 500 aparecia na carroçaria, centros das rodas e asa, e era gravado na cobertura do W16. Dentro, couro Deep Blue, Blue Carbon Matt e French Racing Blue acompanhavam painéis de porta em couro Deep Blue cortado, entrançado e cosido à mão.

O L’Ultime fechou a produção Chiron, mas não foi o último Bugatti com W16: Bolide e W16 Mistral ainda pertenciam ao epílogo industrial desse motor. Esta precisão é importante. O L’Ultime encerra a família de 500 coupés Chiron e transforma o último lugar de produção numa autobiografia móvel; a despedida total do W16 teria capítulos próprios.

Entre o primeiro e o último automóvel, a forma manteve-se imediatamente reconhecível. O que mudou foi o conhecimento acumulado: chassis mais precisos, relações mais curtas, carroçaria Longtail, motor de 1.600 PS, pneus ensaiados acima de 500 km/h e uma personalização capaz de desenhar a própria cronologia na pintura. O n.º 500 não precisou de inventar outra personalidade. Reuniu todas.

L’Ultime, Chiron n.º 500, em perfil
O Chiron n.º 500 reinterpreta as cores do primeiro exemplar e escreve na carroçaria os lugares da sua própria história. — Crédito: Bugatti Automobiles S.A.S.

IV — OS PARENTES QUE NÃO SÃO “CHIRON ESPECIAIS”

Em documentação institucional, a Bugatti descreveu a família Chiron como quatro derivados de caráter distinto — Chiron, Sport, Pur Sport e Super Sport — e separou Divo, Centodieci e La Voiture Noire como celebrações do coachbuilding moderno. O parentesco técnico é real; a identidade de modelo também.

Divo: a carroçaria que abriu uma nova liberdade

Revelado em 24 de agosto de 2018 no The Quail, em Monterey, o Divo reutilizava o W16 de 1.500 PS, mas recebia carroçaria, aerodinâmica e linguagem visual próprias. Foi limitado a 40 unidades, imediatamente vendidas, e homologado como automóvel de estrada.

Mais 90 kg de carga aerodinâmica, menos 35 kg de massa, 1,6 g de aceleração lateral, direção e suspensão específicas e 380 km/h de velocidade máxima tornavam-no oito segundos mais rápido do que o Chiron no circuito de handling de Nardò, segundo a Bugatti. O nome homenageava Albert Divo, vencedor por duas vezes da Targa Florio ao volante de Bugatti.

O Divo é parente do Chiron como um carroçável de autor pode ser parente do chassis que lhe fornece órgãos. Reduzi-lo a “Chiron especial” apagaria precisamente o objetivo do projeto: recuperar a liberdade do coachbuilding e criar um modelo de comportamento e forma próprios.

Centodieci: o EB110 reinterpretado em dez exemplares

Apresentado em 2019 e limitado a dez unidades, o Centodieci homenageou o EB110. Partilhava com o Chiron Super Sport o W16 de 1.600 PS, mas recebeu carroçaria, refrigeração, aerodinâmica, afinação dinâmica e assinatura sonora próprias; o motor ficava sob uma cobertura envidraçada ao estilo EB110.

A Bugatti classificou-o como “coachbuilt few-off”. Cada automóvel passava por um ensaio de entrega de pelo menos 350 km; o programa de desenvolvimento acumulou dezenas de milhares de quilómetros. O décimo e último ficou concluído em 2022. É um modelo autónomo em dez capítulos, não uma edição cosmética do Chiron.

La Voiture Noire: o one-off que não cabe numa versão

Apresentada em Genebra em 5 de março de 2019 e vendida por 11 milhões de euros antes de impostos, La Voiture Noire foi uma criação única inspirada no Atlantic negro desaparecido de Jean Bugatti. Utilizava o W16 de 1.500 PS e conhecimento técnico contemporâneo da marca, mas toda a pele em carbono, proporções, superfícies, vidros e traseira de seis saídas foram concebidos como projeto autónomo.

A Bugatti submeteu-a a um desenvolvimento e homologação próprios, incluindo veículo de testes durante cerca de dois anos. A definição oficial — one-off de coachbuilding — é suficiente. Chamar-lhe “Chiron especial” seria tão redutor como chamar a uma obra de arquitetura “uma parede especialmente decorada” porque partilha betão com o edifício vizinho.

O que a família Chiron ensinou

O Chiron original já era uma solução para problemas contraditórios: potência e docilidade, velocidade e estabilidade, carbono e couro, refrigeração brutal e elegância formal. As derivações não corrigiram uma falha; exploraram margens de uma arquitetura deliberadamente superdimensionada.

O Sport provou que calibração, diferencial e pequenas reduções de massa podiam tornar o automóvel mais preciso sem o descaracterizar. O Pur Sport mostrou que a expressão mais intensa de 1.500 PS não tinha de ser a velocidade máxima: podia ser a rapidez com que o motor regressava à zona útil, o modo como uma roda mais leve seguia o piso ou a confiança com que o eixo dianteiro aceitava carga.

O programa 300+ tratou o ar como adversário estrutural e o pneu como componente aeroespacial. O Super Sport retirou-lhe o dramatismo de demonstração e converteu o conhecimento numa máquina de viagem a alta velocidade. O Profilée demonstrou que mesmo a engenharia mais agressiva podia ser reformulada com contenção visual.

As edições históricas fizeram outra coisa: transformaram a superfície e o habitáculo em meios de memória. França, aviadores, Atlantic, L’Ébé, Le Mans, Type 55 e toda a cronologia Bugatti apareceram em alumínio, esmalte, couro, carbono, bordado, tinta e até grafite de lápis.

Finalmente, o Sur Mesure alterou a unidade de medida. Já não bastava contar quilowatts, quilogramas ou quilómetros por hora; passaram a contar-se semanas de pintura, meses de diálogo, milhares de metros de couro, centenas de horas de desenho e viagens a museus para confirmar uma cor.

Da precisão à agilidade; da agilidade à velocidade extrema; da velocidade à exclusividade; da exclusividade à personalização absoluta; e daí à despedida. O Chiron não se multiplicou porque a Bugatti não soubesse o que ele era. Multiplicou-se porque a marca percebeu que aquela arquitetura podia ser muitas coisas sem deixar de ser reconhecível.

E talvez seja essa a sua conquista mais rara. Atravessar 300 mph exige potência, aerodinâmica, pneus, pista e coragem. Atravessar oito anos de evolução sem perder identidade exige algo ainda menos mensurável: saber exatamente o que pode mudar — e o que nunca deve mudar.

Tabela cronológica e genealógica final

Modelo/ediçãoAnoBasePotênciaCaracterística distintivaProdução documentalCategoria editorial
Chiron Sport2018Chiron1.500 PSDynamic Handling, torque vectoring, -18 kgSem limite autónomo divulgadoDerivação
Chiron Sport “110 ans Bugatti”2019Chiron Sport1.500 PS110 anos, França e tricolor20 previstas; conclusão não discriminadaEdição especial
Edition “Chiron Noire” Élégance/Sportive2019Chiron ou Sport1.500 PSDuas leituras do negro/Atlantic20 no total previstasEdição especial
Chiron “Zebra 1 of 1”2019Chiron1.500 PSVagues de lumière pintadas à mão1Personalização equivalente/one-off
Chiron Super Sport 300+2019Derivado Longtail1.600 PSSérie celebrativa das 300 mph30 produzidos e entreguesDerivação/série técnica limitada
Chiron Pur Sport2020Chiron/Sport1.500 PSRelações -15%, mais carga, 350 km/hLimite 60; total final não discriminadoDerivação
Chiron Sport “Les Légendes du Ciel”2020Chiron Sport1.500 PSPilotos Bugatti e aviação20 previstasEdição especial
Chiron Sport “Alice”2021Chiron Sport1.500 PSSilk Rosé, encomenda pessoal1Personalização equivalente/one-off
Chiron habillé par Hermès2021Chiron1.500 PSHermès, Craie, Courbettes1Projeto equivalente/one-off
Chiron Pur Sport “Grand Prix”2021Pur Sport1.500 PS1931, Louis Chiron/Varzi, n.º 321Sur Mesure/one-off
Chiron Super Sport2021Ramo Longtail1.600 PSGrand tourer de 440 km/hSem limite autónomo; parte dos 500Derivação
Dois “Vagues de Lumière”2022Super Sport/Pur Sport1.600/1.500 PSReflexos pintados à mão2Sur Mesure/one-offs
Chiron L’Ébé20221 Chiron + 2 Sport1.500 PSL’Ébé Bugatti e Art Déco3Edição especial
Chiron Profilée2022Ramo Pur Sport1.500 PSPur Sport elegante, cauda termodinâmica1Derivação única
Chiron Super Sport “Golden Era”2023Super Sport1.600 PS45 desenhos, >400 h no exterior1Sur Mesure/one-off
Chiron Super Sport “57 One of One”2023Super Sport1.600 PSHomenagem ao Atlantic e cor autenticada1Sur Mesure/one-off
Chiron Super Sport “L’aura”2023Super Sport1.600 PSVagues Rosso Efesto/Arancia Mira1Sur Mesure/one-off
Chiron Super Sport “Coup de Foudre”2023Super Sport entregue1.600 PSTransformação pós-entrega de sete meses1Aftersales/Sur Mesure equivalente
Chiron SS “Hommage Type 50S”2024Super Sport1.600 PSLe Mans 1931, chassis 50177, perlée1Sur Mesure/one-off
Chiron SS “55 1 of 1”2024Super Sport1.600 PSHomenagem ao Type 551Sur Mesure/one-off
Chiron SS “L’Ultime”2024Super Sport1.600 PSChiron n.º 500; autobiografia da família1Sur Mesure/one-off final

Nota de leitura: Divo (40), Centodieci (10) e La Voiture Noire (1) não integram esta tabela de variantes Chiron por serem modelos autónomos de coachbuilding moderno. O Super Sport 300+ aparece como derivação/série técnica limitada porque combina alterações fundamentais de engenharia com uma produção fechada de 30 exemplares.

Vídeo recomendado

Bugatti — “L’ULTIME: celebrating the end of the incomparable CHIRON era” — vídeo oficial

O filme oficial acompanha de forma particularmente coerente este artigo: recupera o percurso do Chiron desde a apresentação de 2016 e culmina no L’Ultime, o exemplar n.º 500 que encerrou a produção da família.

Fontes primárias e documentação técnica

  1. https://spuniqcars.com/2021/02/22/bugatti-chiron-a-monstruosidade-ganha-beleza-e-um-novo-coracao-em-forma-de-w16/SPUNIQCARS, “Bugatti Chiron – a monstruosidade ganha beleza e um novo coração em forma de W16”, 22/02/2021: artigo SPUNIQCARS de 2021
  2. Bugatti Newsroom, fichas técnicas oficiais Chiron: https://newsroom.bugatti.com/en/about/technical-specifications
  3. Chiron Sport, Genebra 2018: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/88th-geneva-international-motor-show-2018
  4. Chiron Pur Sport: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/bugatti-chiron-pur-sport-a-pure-driving-machine
  5. Pur Sport e Super Sport 300+ em Nardò: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/chiron-super-sport-300-and-chiron-pur-sport-bugattis-broad-spectrum-of-performance
  6. Passagem das 300 mph: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/bugatti-breaks-the-300-mph-barrier
  7. Super Sport 300+ de produção: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/bugatti-chiron-super-sport-300-plus
  8. Primeiros oito Super Sport 300+: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/first-bugatti-chiron-super-sport-300-ready-for-launch
  9. Último dos 30 Super Sport 300+: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/final-world-record-breaking-bugatti-chiron-super-sport-300-delivered
  10. Chiron Super Sport: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/the-bugatti-chiron-super-sport-the-quintessence-of-luxury-and-speed
  11. Chiron Profilée: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/the-bugatti-chiron-profilee-an-automotive-solitaire
  12. Chiron Sport “110 ans Bugatti”: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/bugatti-chiron-sport-110-ans-bugatti-a-tribute-to-france
  13. Edition “Chiron Noire”: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/bugatti-edition-chiron-noire-exclusive-special-model
  14. “Les Légendes du Ciel”: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/bugatti-chiron-sport-les-legendes-du-ciel
  15. Chiron L’Ébé: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/bugatti-chiron-lebe-bugatti-honors-ettores-daughter-with-a-special-edition
  16. Lançamento Bugatti Sur Mesure/Grand Prix/Zebra: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/bugatti-sur-mesure-official-customization-program
  17. Chiron Sport Alice: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/bugatti-creates-extraordinary-chiron-sport-masterpiece-gift-2
  18. Chiron habillé par Hermès: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/chiron-habille-par-hermes-the-pinnacle-of-luxury-created-in-a-cooperation-between-bugatti-and-hermes
  19. Vagues de Lumière: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/inspired-by-light-bugatti-reveals-two-bespoke-sur-mesure-creations
  20. Golden Era: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/bugatti-chiron-super-sport-golden-era-the-pinnacle-of-hand-crafted-luxury
  21. 57 One of One: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/the-bugatti-chiron-super-sport-57-one-of-one-homage-to-an-icon
  22. L’aura/Coup de Foudre: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/two-matching-bugatti-creations-are-a-love-story-of-creativity-and-passion
  23. Hommage Type 50S: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/celebrating-the-pioneering-bugatti-type-50s-and-its-incomparable-racing-heritage-1
  24. 55 1 of 1: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/bugatti-sur-mesure-captures-the-spirit-of-jean-bugattis-type-55
  25. L’Ultime: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/celebrating-the-end-of-the-incomparable-chiron-era
  26. Divo: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/world-premiere-for-the-divo
  27. Centodieci: https://newsroom.bugatti.com/en/press-releases/driving-for-perfection-bugatti-centodieci
  28. La Voiture Noire: https://newsroom.bugatti.com/press-releases/bugatti-la-voiture-noire-a-one-off-car-for-the-anniversary

Fonte secundária usada apenas para a distinção regulamentar do recorde: BBC Top Gear, “Why Bugatti only broke 300mph in one direction”, 03/09/2019: https://www.topgear.com/car-news/supercars/why-bugatti-only-broke-300mph-one-direction

Créditos editoriais

Editor-Chefe da SPUNIQCARS: António Ricardo

Conceção editorial e direção do projeto: António Ricardo

Investigação documental, estruturação, cruzamento técnico, redação e revisão: António Ricardo × Francisco Quântico

Francisco Quântico é a identidade editorial utilizada pelo assistente de inteligência artificial na parceria SPUNIQCARS × Francisco Quântico. A sua participação neste trabalho incidiu na pesquisa de fontes primárias, organização genealógica, verificação de nomenclaturas e produção, comparação técnica, redação e preparação editorial. Esta colaboração não substitui a responsabilidade, decisão e função de António Ricardo como Editor-Chefe da SPUNIQCARS.