Bentley Supersports: quando menos Bentley significa ainda mais Bentley

Cem anos depois do primeiro Super Sports, Crewe recupera o nome para um automóvel de 666 PS, tração traseira, dois lugares e menos de duas toneladas — não através da rejeição da tecnologia, mas escolhendo cuidadosamente aquela que merece ficar.

Bentley Supersports atual em vista dianteira de três quartos
Bentley Supersports atual em vista dianteira 3/4: a quarta geração do Continental GT recebe uma identidade funcional marcada pelo splitter, pelos elementos aerodinâmicos laterais e pela asa traseira fixa. Crédito: Bentley Motors.

Quando menos pode significar mais

Há números que parecem suficientes para explicar um automóvel: 666 PS, 800 Nm, tração traseira, dois lugares e 1.995 kg. No novo Bentley Supersports, porém, os números são apenas a consequência visível de uma decisão bastante mais profunda. Pela primeira vez num Continental de estrada, toda a potência segue exclusivamente para as rodas traseiras; desaparece a componente híbrida da quarta geração do Continental GT, desaparece a tração integral e desaparece também uma parte substancial da massa que acompanhava essas soluções.

O resultado continua a ocupar o espaço físico de um grande turismo: 4.989 mm de comprimento, 2.852 mm entre eixos e uma presença que ninguém confundiria com a de um pequeno desportivo. Mas a filosofia mudou. Em vez de perguntar quanta tecnologia poderia acrescentar ao Continental GT, a Bentley começou por perguntar o que aconteceria se retirasse complexidade e conservasse apenas aquilo que contribuísse diretamente para o carácter pretendido.

Essa pergunta surgiu em setembro de 2024. Uma pequena equipa de engenharia recebeu autorização para construir um único protótipo de desenvolvimento com duas condições fundamentais: tração traseira e menos de duas toneladas. Seis semanas depois, o automóvel estava em pista. A experiência acabaria por convencer a própria direção da Bentley de que aquela hipótese merecia transformar-se num programa de produção. Internamente, o projeto recebeu um nome que ligava a experiência a uma das figuras mais extraordinárias da história da marca: Project Mildred.

Daí nasceu um Supersports diferente de todos os anteriores. O V8 biturbo de 4,0 litros desenvolve 666 PS e 800 Nm sem assistência elétrica; a transmissão ZF de dupla embraiagem e oito velocidades envia o esforço apenas para trás através de um diferencial autoblocante eletrónico; o chassis combina direção traseira, suspensão pneumática, amortecimento de duas câmaras e Bentley Dynamic Ride de 48 V; os discos CSiC dianteiros chegam aos 440 mm; e uma aerodinâmica profundamente funcional pode acrescentar até cerca de 300 kg de carga relativamente ao Continental GT Speed, segundo a formulação mais recente da Bentley.

Nada disto transforma o Supersports num exercício de austeridade. Há bancos aquecidos e reguláveis eletricamente, materiais nobres, personalização quase obsessiva e tecnologia suficiente para recordar que continuamos dentro de um Bentley. A diferença está na seleção. O automóvel não procura ser simples por princípio; procura eliminar aquilo que não serve a missão.

É também por isso que os 1.995 kg merecem mais atenção do que a ficha técnica deixa perceber. A maior contribuição individual para a redução de massa não veio de um componente exótico escondido algures no chassis. Veio da própria arquitetura: abandonar o sistema híbrido e a tração integral. Depois vieram o tejadilho em carbono, a eliminação dos lugares traseiros e respetivos cintos, a redução de isolamento acústico, a reconfiguração do sistema de áudio, componentes interiores mais leves e a remoção de determinados sistemas de assistência. Mildred não fez dieta. Mudou de metabolismo.

A história, contudo, começou muito antes de setembro de 2024. O nome Super Sports já tinha significado outra coisa em 1925; regressaria sob formas profundamente diferentes em 2009 e 2017 e seria influenciado, pelo caminho, pela experiência acumulada na competição e em projetos como o Continental GT3-R. Um século separa o primeiro Super Sports deste automóvel, e quase tudo na engenharia mudou durante esse intervalo. O que permaneceu foi uma pergunta: até onde pode a Bentley levar um grande turismo quando decide aproximá-lo deliberadamente do condutor? Para compreender a resposta de 2026, temos primeiro de regressar a 1925.

1925 — Antes de Supersports ser Supersports

Em 1925, a designação ainda se escrevia em duas palavras: Super Sports. O automóvel que a recebeu pertencia à família do Bentley 3 Litre, a máquina que ajudara a estabelecer a reputação da jovem marca britânica através de uma combinação pouco habitual de resistência, velocidade e robustez. A Bentley não estava ainda a criar uma subfamília de produto com regras próprias. Estava a procurar levar mais longe uma fórmula que já tinha demonstrado aquilo de que era capaz.

O 3 Litre era tecnicamente ambicioso para o seu tempo. O quatro cilindros utilizava árvore de cames à cabeça, quatro válvulas por cilindro, duas velas por cilindro e ignição por magnetos, soluções que refletiam a convicção de W.O. Bentley de que desempenho e resistência não eram objetivos incompatíveis. A competição ajudaria a provar o princípio, incluindo as primeiras grandes afirmações da marca em Le Mans.

O Super Sports elevou a potência para cerca de 85 bhp e combinou-a com um chassis mais curto e leve. A própria Bentley identifica-o como o primeiro automóvel da marca capaz de ultrapassar 100 mph e regista apenas 18 exemplares produzidos. Num período em que a Bentley fornecia frequentemente o chassis para receber carroçarias executadas por empresas especializadas, falar num Super Sports de 1925 implica também aceitar que a aparência final podia variar de exemplar para exemplar.

Bentley 3 Litre Super Sports histórico Smoky em Goodwood
Bentley 3 Litre Super Sports histórico, conhecido como «Smoky», em ação no Goodwood Festival of Speed de 2026. A imagem documenta um automóvel histórico preservado pela Bentley, sem o apresentar como configuração original intocada. Crédito: Bentley Motors.

O contexto desportivo reforçava a obsessão pela velocidade sustentada. Em Montlhéry, o recém-inaugurado circuito francês de alta velocidade tornar-se-ia palco de recordes importantes para a Bentley e para algumas das pessoas que orbitavam a marca. Em 1925, John Duff e Woolf Barnato percorreram mais de 2.280 milhas em 24 horas, a uma média superior a 95 mph, estabelecendo uma série de recordes. Quatro anos depois, outra história extraordinária naquele mesmo anel ligaria definitivamente o nome Mildred à memória da Bentley.

Seria tentador olhar para o automóvel atual e procurar uma linha técnica direta até estes 18 carros. Ela não existe. O Super Sports de 1925 e o Supersports contemporâneo pertencem a mundos de engenharia, segurança, aerodinâmica e utilização incomparáveis. A relação relevante é outra: ambos nasceram da vontade de descobrir o que aconteceria quando uma Bentley já rápida fosse deliberadamente tornada mais focada, mais leve e mais próxima do desempenho. Partilharam uma intenção. Utilizaram ferramentas separadas por um século de engenharia.

Uma linhagem que não segue uma fórmula

Em 2009, Super Sports tornou-se Supersports. O W12 biturbo de 5.998 cm³ passou a produzir 630 PS e 800 Nm, associado a uma transmissão automática ZF de seis velocidades com Quickshift e tração integral. A Bentley anunciou 0–100 km/h em 3,9 segundos e 329 km/h, num automóvel de dois lugares que reduzia aproximadamente 100 kg relativamente ao Continental GT de referência e podia utilizar gasolina ou E85 bioetanol.

O Coupé foi seguido pelo Continental Supersports Convertible, que recuperou quatro lugares. Um Convertible Supersports conduzido por Juha Kankkunen estabeleceu em 2011 um recorde de velocidade sobre gelo de 330,695 km/h; a Bentley assinalou o feito com 100 exemplares do Supersports Convertible ISR, com 640 PS.

A competição voltou a entrar explicitamente na história com o Continental GT3, de tração traseira, e depois com o Continental GT3-R de estrada. Produzido em 300 unidades, o GT3-R utilizava um V8 biturbo de 580 PS e 700 Nm, dois lugares, tração integral e vetorização de binário através dos travões. O GT3-R não foi o pai do Supersports seguinte. Foi um dos seus professores.

2017 — Quando o Supersports acumulava para ir mais longe

Em janeiro de 2017, a Bentley apresentou um Continental Supersports de segunda geração com W12 biturbo de 6,0 litros, 710 PS e 1.017 Nm. A transmissão automática de oito velocidades e a tração integral com distribuição nominal de 40:60 trabalhavam com uma evolução da vetorização de binário por travagem vinda do GT3-R. A Bentley anunciou 0–100 km/h em 3,5 segundos e 336 km/h.

Bentley Continental Supersports de 2017
Continental Supersports de 2017: o W12, a tração integral e os quatro lugares representavam uma interpretação profundamente diferente do nome que regressaria com Project Mildred. Crédito: Bentley Motors.

Regressaram os quatro lugares e a produção foi limitada a 710 exemplares, em correspondência com os 710 PS. Era quase o inverso conceptual de Project Mildred: em vez de retirar sistemas fundamentais para descobrir o que restava, integrava potência, tração, travagem, eletrónica e luxo até ao limite permitido pela plataforma. O nome nunca exigiu que a engenharia repetisse uma fórmula anterior; exigiu que a Bentley levasse mais longe a personalidade dinâmica do automóvel que tinha em mãos.

Batur — Antes de mudar a engenharia, mudou a linguagem

Apresentado em 2022, o Mulliner Batur foi descrito pela Bentley como o início de uma revolução de design. Produzido numa série extremamente limitada e baseado ainda na arquitetura W12, não antecipava mecanicamente o Supersports. A sua importância estava sobretudo na linguagem visual que começava a preparar a Bentley para uma nova fase.

Bentley Mulliner Batur apresentado em 2022
Mulliner Batur, apresentado em 2022. A sua relevância para o Supersports está na evolução da linguagem visual da Bentley, não numa relação mecânica direta. Crédito: Bentley Motors.

Sob a direção de design de Andreas Mindt, com Tobias Suehlmann responsável pelo exterior e Andrew Hart-Barron pelo interior, o Batur alterou proporções visuais, superfícies, assinatura luminosa e tratamento gráfico. A Bentley afirmava então que essa linguagem ajudaria a definir os seus futuros automóveis, incluindo um primeiro modelo totalmente elétrico então previsto para 2025. Essa previsão pertence ao contexto de 2022 e não deve ser confundida com o que efetivamente aconteceu posteriormente.

A quarta geração já fornecia proporções muito fortes, superfícies mais limpas e uma linguagem visual que devia alguma coisa à mudança anunciada pelo Batur. Project Mildred não nasceu do Batur e o Supersports não é uma derivação mecânica dele. A relação é de design.

Setembro de 2024 — A pergunta que começou tudo

Em julho de 2024, a Bentley concluiu a produção do W12, depois de mais de duas décadas e mais de 105.000 unidades produzidas. A proximidade cronológica com Project Mildred é relevante, mas não prova causalidade. Em setembro surgiu a pergunta: como se comportaria um Continental GT com tração traseira e menos de duas toneladas? Uma pequena equipa recebeu autorização para construir um único mule de desenvolvimento; cerca de seis semanas depois, o protótipo estava em pista.

Não existe fundamento suficiente para identificar com segurança o primeiro circuito, primeiro piloto, massa exata, potência, matrícula, VIN, cor ou configuração detalhada daquele mule. O que sabemos é mais importante: membros da direção conduziram-no, a reação foi favorável e a hipótese começou a demonstrar potencial para produção.

Frank-Steffen Walliser descreveu posteriormente o Supersports como o primeiro projeto que acompanhou integralmente desde o início após a chegada à Bentley. A sua longa carreira anterior na Porsche é factual, mas não autoriza transformar Project Mildred numa suposta “Porscheização” da Bentley.

Alistair Corner, Head of Product Requirements and Attributes, esteve diretamente envolvido; Darren Purvin, Project Leader para Continental GT, GTC e Flying Spur, descreveu igualmente a génese como uma discussão sobre até onde poderiam ser levadas as capacidades dinâmicas do Continental existente. Em março de 2025, o programa recebeu aprovação. A pequena equipa inicial explica a origem; centenas de colegas seriam necessários para transformar a experiência num Bentley de produção. Foi aí que Project Mildred começou verdadeiramente a existir.

Porque se chamava Mildred

Mildred Mary Petre Bruce, também conhecida como Mrs Victor Bruce, destacou-se no automobilismo, aviação e motonáutica. Em 1929 levou um Bentley 4½ Litre para Montlhéry e conduziu-o sozinha durante 24 horas. A Bentley regista aproximadamente 2.164 milhas — cerca de 3.482 km — e uma média superior a 89 mph, estabelecendo um recorde mundial solo.

Segundo a narrativa histórica recuperada pela Bentley, Mildred não tinha conduzido aquele 4½ Litre antes do próprio dia; nas inclinações de Montlhéry a velocidade podia aproximar-se das 105 mph, a repetição provocava tonturas e a tentativa incluiu uma paragem prolongada para reabastecimento e ajustes. Há até o episódio em que acabou por engolir gasolina durante uma operação relacionada com combustível. Não é a solução de hidratação que a SPUNIQCARS recomenda, mas ajuda a colocar o feito no seu tempo.

O chassis KM3077, matriculado YV 7263, tinha sido entregue em maio de 1928 e tivera como primeiro proprietário H.R.S. “Tim” Birkin. Era um 4½ Litre naturalmente aspirado, não um Blower. Pouco mais de uma semana depois do recorde, competiu em Le Mans em 1929 com o número 11, conduzido por Bernard Rubin e Lord Howe, abandonando com problemas de ignição.

A identidade histórica do chassis sobreviveu, mas o automóvel recebeu alterações ao longo da vida, incluindo mudança de motor e diferentes carroçarias. Project Mildred encontrou, assim, uma designação apropriada: não por parentesco mecânico, mas pela curiosidade de descobrir até onde podia ir um Bentley.

666 PS e nenhum eletrão a empurrar as rodas

O Supersports regressou. O W12, não. No centro está um V8 biturbo de 3.996 cm³, sem componente híbrida. A especificação Supersports inclui uma estrutura do crankcase reforçada, cabeças revistas e turbocompressores maiores.

O resultado são 666 PS — 490 kW ou 657 bhp — e 800 Nm, com 166,5 PS por litro. Não encontrámos documentação Bentley que atribua aos 666 PS qualquer significado simbólico: são 666 PS porque o motor produz 666 PS.

Permanecem fora do corpo factual dados como pressão máxima de sobrealimentação, taxa de compressão, diâmetro e curso, especificação interna de pistões e bielas, fabricante e referência dos turbocompressores, pressão de injeção ou regimes exatos de potência e binário enquanto não existir documentação robusta.

Entre o V8 e as rodas traseiras encontra-se uma transmissão ZF de dupla embraiagem e oito velocidades, com embraiagens reforçadas e estratégia de passagem específica. A respiração do V8 termina num sistema Akrapovič integralmente em titânio; a Bentley sublinha a sonoridade natural do V8, sem necessidade de amplificação artificial no habitáculo.

No lançamento, a Bentley estimava 0–100 km/h em 3,7 segundos e aproximadamente 310 km/h. A informação atual passou para 3,6 segundos e 320 km/h, sendo a aceleração associada pela marca ao pneu de performance opcional instalado como equipamento original. Não existe motor elétrico a acrescentar binário e não existe eixo dianteiro a receber potência. Os 800 Nm têm apenas uma direção possível: para trás.

A revolução está atrás

O Supersports tornou-se o primeiro Continental GT de estrada a enviar toda a potência exclusivamente às rodas traseiras. A ressalva “de estrada” importa: o Continental GT3 de competição já tinha utilizado tração traseira.

Os 800 Nm chegam ao eixo traseiro através da ZF 8DCT e de um diferencial autoblocante eletrónico, eLSD, que trabalha em conjunto com vetorização através dos travões. São mecanismos complementares, não duas designações para a mesma coisa.

Bentley Supersports atual em configuração de tração traseira
O Supersports atual explora, pela primeira vez num Continental GT de estrada, uma arquitetura que envia toda a potência exclusivamente às rodas traseiras. Crédito: Bentley Motors.

A via traseira foi alargada em 16 mm relativamente ao Continental GT de referência. A direção às quatro rodas permanece e foi recalibrada, tal como direção, suspensão, controlo de tração e ESC. O objetivo não é fingir que a eletrónica desapareceu, mas utilizá-la de forma compatível com a nova arquitetura.

Menos de duas toneladas — não foi dieta, foi metabolismo

A meta estava presente desde setembro de 2024: menos de duas toneladas. A especificação atual anuncia 1.995 kg de massa sem carga. A Bentley descreve o Supersports como quase meia tonelada mais leve do que o Continental GT de referência, como o Bentley de estrada mais leve em 85 anos e como a redução de massa mais extrema realizada pela marca.

A maior contribuição individual veio do sistema propulsor: substituir a arquitetura híbrida e de tração integral por um conjunto exclusivamente térmico e de tração traseira. Mildred não fez dieta. Mudou de metabolismo.

Depois vieram tejadilho em fibra de carbono, eliminação dos bancos e cintos traseiros, redução de isolamento acústico, reconfiguração do áudio, remoção de alguns sistemas de assistência, estrutura traseira leve em carbono e bancos dianteiros específicos mais leves e baixos, ainda com regulação elétrica de 11 vias e aquecimento.

Estrutura leve em carbono na zona traseira do Bentley Supersports
A eliminação dos lugares traseiros abriu espaço a uma estrutura leve em carbono parcialmente revestida, tornando visível uma das áreas em que a redução de massa alterou a própria arquitetura interior. Crédito: Bentley Motors.

A Bentley não fornece uma decomposição completa que permita construir uma tabela credível de quilogramas poupados peça a peça. Não a inventamos. Chegar aos 1.995 kg não tornou o Supersports pequeno; tornou-o extraordinariamente mais leve para aquilo que continua a ser.

Um chassis que não confunde pureza com primitivismo

Na frente, o Supersports utiliza suspensão de braços duplos em alumínio; atrás, multilink. As molas pneumáticas permanecem e os amortecedores de duas câmaras permitem controlar eletronicamente compressão e extensão de forma independente.

O Bentley Dynamic Ride de 48 V pode gerar até 1.300 Nm de binário de reação antibalanço em cerca de 0,3 segundos. Estes 1.300 Nm representam a atuação do controlo ativo do rolamento, não binário do motor.

Direção traseira, amortecimento, Dynamic Ride, eLSD, vetorização por travagem, controlo de tração e ESC formam uma rede sofisticada. Seria errado apresentar o Supersports como revolta analógica: não é primitivismo, mas tecnologia selecionada para servir uma arquitetura mecanicamente mais direta.

440 mm para parar Mildred

Os discos CSiC dianteiros medem 440 mm e utilizam pinças de dez pistões; atrás são 410 mm e quatro pistões. A Bentley apresenta o conjunto como o maior sistema de travagem automóvel do mundo, afirmação que preservamos como alegação da marca.

As jantes têm 22 polegadas, são em alumínio forjado e maquinado e foram desenvolvidas em colaboração com a Manthey Racing. Os pneus standard são Pirelli P Zero; os P Zero Trofeo RS são opcionais.

Jante forjada e travões CSiC do Bentley Supersports
A jante forjada de 22 polegadas desenvolvida com a Manthey Racing deixa ver o conjunto de travagem CSiC; a imagem documenta a integração entre roda, pneu e travão sem atribuir dimensões de pneu não divulgadas. Crédito: Bentley Motors.

Segundo a Bentley, a configuração correspondente pode atingir até 1,3 g de aceleração lateral e permitir velocidades em curva aproximadamente 30% superiores às do Continental GT Speed. Os 3,6 segundos dos 0–100 km/h da especificação atual são associados pela marca ao pneu de performance opcional instalado como equipamento original.

Mais de 300 kg que não estão na balança

No lançamento, a Bentley afirmou que o pacote aerodinâmico produzia mais de 300 kg adicionais de downforce relativamente ao Continental GT Speed; documentação posterior passou a usar até 300 kg adicionais. Preservamos ambas com contexto, sem inventar velocidade de referência ou carga absoluta.

A frente recebeu novo para-choques inferior e o maior splitter utilizado até então num Bentley de estrada, canais de refrigeração e dois pares sobrepostos de dive planes por canto. Elementos laterais em carbono prolongam o trabalho; nas asas dianteiras surgem lâminas em forma de B, motivo visual desenvolvido no design e tornado funcional. Num projeto em que forma e função negociaram cada centímetro, até uma letra teve de arranjar trabalho.

Splitter e dive planes dianteiros do Bentley Supersports
O tratamento dianteiro combina splitter, canais de refrigeração e dive planes: elementos apresentados pela Bentley como funcionais, e não como decoração acrescentada. Crédito: Bentley Motors.

Atrás, a construção do para-choques foi revista, existem aberturas associadas às cavas, um grande difusor e uma asa traseira fixa de uma só peça. Splitter, dive planes, saias, lâminas, difusor e asa devem ser entendidos como um conjunto.

Asa fixa e difusor traseiro do Bentley Supersports
Na traseira, a asa fixa, o difusor e as aberturas associadas às cavas trabalham como parte do mesmo pacote aerodinâmico. Crédito: Bentley Motors.

A distribuição estática de massas é 54:46 frente/traseira; a aerodinâmica pode deslocar o equilíbrio de carga para trás com a velocidade. Não significa que a massa física migre, mas que mudam as cargas verticais exercidas sobre os eixos.

Primeiro engenharia, depois desenho

Project Mildred começou com uma pergunta de engenharia, não com um desenho. A base era a quarta geração do Continental GT, com 4.989 mm de comprimento, 2.187 mm de largura incluindo espelhos, 1.391 mm de altura e 2.852 mm entre eixos. Sob as superfícies permanece a estrutura monocoque de aço e alumínio da família Continental.

Robin Page ocupava a liderança de Design durante o desenvolvimento, mas o Supersports resultou de trabalho coletivo. Domen Rucigaj liderava Exterior Design na fase relevante. Entre as propostas, o trabalho de Ilya Razumov assumiu importância particular, incluindo o motivo B nas asas, enquanto Yasu Jordan Sato participou igualmente através de desenhos e exploração formal.

O processo utilizou Blender e um modelo físico à escala 1:3. A relação com o Batur permanece na evolução da linguagem visual, não numa genealogia mecânica. A quarta geração já fornecia proporções muito fortes; o Supersports não precisava de as substituir, mas de lhes acrescentar uma finalidade diferente.

Perfil lateral do Bentley Supersports atual
O perfil evidencia as proporções da quarta geração do Continental GT e a forma como a engenharia do Supersports foi traduzida numa silhueta visualmente coerente. Crédito: Bentley Motors.

Dois lugares, mas ainda um Bentley

Há fibra de carbono, bancos específicos e apenas dois lugares, mas continuam presentes couro, Dinamica, regulação elétrica, aquecimento e atenção aos materiais. Os lugares traseiros e cintos desapareceram; a zona recebeu uma estrutura leve em carbono parcialmente revestida, com menos isolamento acústico e áudio reconfigurado.

Cockpit de dois lugares do Bentley Supersports
O cockpit conserva a arquitetura e o luxo reconhecíveis de um Bentley, mas reorganiza materiais, posição de condução e ambiente em torno de apenas dois ocupantes. Crédito: Bentley Motors.

Darren Day explicou que os pontos fundamentais da arquitetura e os requisitos de segurança permaneceram, enquanto posição, linhas, cores, materiais e bancos foram trabalhados. Os bancos foram desenvolvidos através de protótipos físicos; Jonathan Stoker participou nesse trabalho. Colour, Materials and Finish contou com profissionais como Andrea Jensen e Sophie Hesketh.

Bancos específicos do Bentley Supersports
Os bancos específicos combinam maior apoio lateral, posição mais baixa, regulação elétrica e aquecimento; couro, Dinamica e fibra de carbono mantêm o carácter Bentley. Crédito: Bentley Motors.

O Coupé de 2009 tinha dois lugares; o Convertible recuperou quatro; o GT3-R voltou a dois; o Supersports de 2017 regressou a quatro; Project Mildred elimina novamente o banco traseiro. O Supersports nunca teve uma receita fixa. Teve uma intenção recorrente.

Em 2026, essa intenção exige dois lugares, mas continua a exigir que os ocupantes saibam, pelo toque, posição, materiais e equipamento, que estão num Bentley. Não é um Bentley menos sofisticado. É um Bentley que parece esconder menos aquilo que pretende ser.

500 carros, milhares de maneiras de serem diferentes

A produção está limitada a 500 exemplares, todos individualmente numerados. Em janeiro de 2026, antes do início da produção, a Bentley anunciou que os 500 estavam reservados. “Reservados” é a formulação documentalmente segura.

Marcação de apresentação 000 de 500 no Bentley Supersports
A marcação de apresentação 000/500 sublinha a numeração individual prevista para a série limitada; não corresponde à identificação de um automóvel de cliente. Crédito: Bentley Motors.

A Bentley definiu cinco temas principais — Daybreak, Skies, Meteorite, Snowstorm e Nightfall — e propostas Mulliner ainda mais específicas. A paleta principal inclui 24 cores exteriores e a marca anuncia mais de 2.000 combinações possíveis para o interior.

Entre as propostas aparece também um grafismo com o número 8 integrado na grelha e coordenado com o banco do condutor. A Bentley não fornece base suficiente para lhe atribuir um significado específico, pelo que o 8 continua simplesmente a ser 8.

Project Mildred começou com uma equipa pequena a retirar coisas de um Continental GT. Quando os 500 automóveis chegarem aos clientes, poucos serão obrigados a parecer iguais. A simplificação da arquitetura abriu espaço para uma das coisas que a Bentley sabe fazer com particular entusiasmo: complicar a escolha das cores.

De Mildred a FULL SEND

Project Mildred já existia quando surgiu a ideia de FULL SEND. A hipótese nascera em setembro de 2024, o primeiro mule fora construído semanas depois e o programa recebera aprovação em março de 2025. A ideia do filme surgiu posteriormente.

O automóvel utilizado por Travis Pastrana recebeu travão de mão hidráulico, alterações específicas na gestão do eLSD, configuração de ESC e software preparado para manobras de filmagem. No comando do travão de mão foi gravado o nome Mildred. Estas modificações não representam integralmente a especificação dos 500 carros de cliente.

Travis Pastrana ao volante do Bentley Supersports FULL SEND
Travis Pastrana ao volante do Supersports: FULL SEND. O automóvel de filmagem recebeu modificações específicas e não representa integralmente a especificação dos 500 carros de cliente. Crédito: Bentley Motors.
Vídeo oficial Bentley: Supersports: FULL SEND with Travis Pastrana

As filmagens decorreram em Crewe entre 26 e 28 de setembro de 2025. Comunicações Bentley identificam de forma diferente o ano do 3 Litre Super Sports histórico utilizado no contexto do filme, aparecendo 1925 e 1926; enquanto a divergência não for resolvida, o artigo não atribui um ano específico àquele exemplar.

Depois da missão diante das câmaras, o automóvel FULL SEND foi destinado à Bentley Heritage Collection. Mildred aprendeu a andar antes de aprender a fazer fumo.

Crewe prepara os 500

A montagem decorrerá em Crewe, casa histórica da produção Bentley desde 1946. “Construído à mão” descreve uma realidade artesanal importante, sobretudo no acabamento e montagem, mas não significa que todos os componentes sejam fabricados manualmente dentro do complexo.

Conhecemos alguns parceiros explicitamente: Akrapovič no escape e Manthey Racing no desenvolvimento das jantes. Para muitos outros componentes, incluindo determinados elementos em carbono, a documentação pública não permite identificar com segurança fornecedor, processo ou local de produção.

A Bentley anunciou inicialmente o arranque da produção no quarto trimestre de 2026 e primeiras entregas no início de 2027. Em março de 2026, porém, uma comunicação posterior da marca passou a indicar que estavam em curso os preparativos para as primeiras entregas ainda durante 2026. Cada exemplar será individualmente numerado e poderá receber uma configuração profundamente personalizada. Entre o primeiro mule e estes 500 automóveis existe praticamente tudo aquilo que separa uma boa ideia de um automóvel real.

Um século depois, a intenção permanece

Em 1925, 85 bhp, um chassis mais curto e menos massa bastaram para transformar o 3 Litre Super Sports no primeiro Bentley capaz de ultrapassar 100 mph. Cem anos depois, os instrumentos são quase irreconhecíveis: 666 PS, 800 Nm, dupla embraiagem, diferencial eletrónico, direção traseira, suspensão pneumática, controlo ativo do rolamento, travões CSiC de 440 mm e aerodinâmica profundamente funcional.

Não existe uma linhagem mecânica direta entre os dois automóveis. Em 2009 Supersports significou W12, tração integral, dois lugares e FlexFuel; o Convertible recuperou quatro lugares; o GT3-R trouxe outras lições; em 2017 significou 710 PS, quatro lugares e integração tecnológica. Project Mildred voltou a mudar a resposta.

Em vez de começar por acrescentar sistemas, começou por perguntar o que aconteceria se a arquitetura fosse reorganizada em torno da tração traseira e de uma massa inferior a duas toneladas. O resultado não rejeita a modernidade: o chassis continua repleto de eletrónica, o interior sofisticado e a aerodinâmica resulta de ferramentas inexistentes no tempo de W.O. Bentley. O que mudou foi a prioridade atribuída a cada sistema.

É por isso que os 1.995 kg talvez contem melhor a história do que os 666 PS. A Bentley não tentou construir o automóvel mais simples possível. Tentou construir um Continental GT em que cada camada tivesse de justificar a sua presença.

Mildred Mary Petre Bruce passara 24 horas sozinha num Bentley em Montlhéry para descobrir até onde máquina e pessoa conseguiriam ir. FULL SEND levou a curiosidade para o espetáculo, Crewe terá de a transformar em 500 automóveis e os futuros proprietários descobrirão quanto da experiência do primeiro mule sobreviveu ao percurso entre pista de testes, homologação e produção.

O Supersports regressou. Não porque a Bentley tenha encontrado novamente a receita de 1925. Mas porque voltou a fazer a mesma pergunta.

Bentley Supersports atual em vista traseira de três quartos
Vista traseira 3/4 do Bentley Supersports atual: um fecho visual distinto da imagem de abertura para uma interpretação do nome construída em torno de menos massa, tração traseira e aerodinâmica funcional. Crédito: Bentley Motors.

Quadro técnico consolidado

CampoEspecificação / nota
ModeloBentley Supersports
BaseQuarta geração do Bentley Continental GT
CarroçariaGrande turismo coupé
Lugares2
Apresentação13 de novembro de 2025, Nova Iorque
Produção500 exemplares, individualmente numerados
Estado da série500 exemplares anunciados como reservados em janeiro de 2026
Local de produçãoCrewe, Inglaterra
Início de produçãoQ4 2026
Primeiras entregasCalendário inicialmente apontado para início de 2027; comunicação Bentley de março de 2026 passou a indicar primeiras entregas ainda em 2026.
Comprimento4.989 mm
Largura2.187 mm, incluindo espelhos
Altura1.391 mm
Distância entre eixos2.852 mm
Via traseira+16 mm vs. Continental GT de referência
Massa sem carga1.995 kg
Distribuição estática54:46, frente/traseira
Estrutura baseMonocoque em aço e alumínio
TejadilhoFibra de carbono
MotorV8 biturbo, exclusivamente térmico
Cilindrada3.996 cm³
Alterações do motorCrankcase reforçado, cabeças revistas, turbocompressores maiores
Potência666 PS / 490 kW / 657 bhp
Potência específica166,5 PS/l
Binário800 Nm
Sistema híbridoNão
TraçãoTraseira
TransmissãoZF DCT de 8 velocidades
Transmissão — alteraçõesEmbraiagens reforçadas e estratégia de passagem específica
DiferencialeLSD traseiro
Direção traseiraSim, recalibrada
Suspensão dianteiraDuplos triângulos em alumínio
Suspensão traseiraMultilink
Elementos elásticosSuspensão pneumática
AmortecimentoDuas câmaras; compressão e extensão controladas independentemente
Controlo de rolamentoBentley Dynamic Ride 48 V; até 1.300 Nm em ~0,3 s
Travões dianteirosCSiC, 440 mm, 10 pistões
Travões traseirosCSiC, 410 mm, 4 pistões
Jantes22'', alumínio forjado e maquinado; desenvolvimento com Manthey Racing
PneusPirelli P Zero; P Zero Trofeo RS opcionais
0–100 km/h3,6 s com pneu de performance opcional OE, segundo Bentley
0–60 mph3,4 s
Velocidade máxima320 km/h
Estimativa de lançamento0–100 km/h 3,7 s; ~310 km/h
Aceleração lateralAté 1,3 g, segundo Bentley, na configuração correspondente
AerodinâmicaSplitter, dive planes, saias, lâminas B funcionais, aberturas traseiras, difusor e asa fixa
Carga aerodinâmica adicionalLançamento: mais de 300 kg; posterior: até 300 kg vs. Continental GT Speed
EscapeAkrapovič integralmente em titânio
BancosEspecíficos, mais leves, posição inferior, 11 vias elétricas e aquecimento
Zona traseiraSem bancos/cintos; estrutura leve em carbono parcialmente revestida
Materiais interioresCouro, Dinamica e fibra de carbono
Personalização5 Design Themes; 24 cores exteriores principais; >2.000 combinações interiores
Project MildredConceito em setembro de 2024; primeiro mule em cerca de seis semanas
Aprovação do programaMarço de 2025
FULL SENDAutomóvel especialmente modificado para filmagem; não representa integralmente a especificação dos 500 carros

Dados não divulgados ou não confirmados

Taxa de compressão; diâmetro e curso; pressão máxima de sobrealimentação; fabricante/referência e geometria dos turbocompressores; especificação de pistões, bielas e cambota; pressão/tipologia detalhada da injeção; regimes exatos de potência e binário; relações individuais da caixa e relação final; dimensões dos pneus; decomposição peça a peça da redução de massa. Estes dados não são inventados nem transferidos de outras variantes.

Fontes e referências documentais

Bentley Motors / Bentley Newsroom — “Supersports: the most driver-focused Bentley ever” (13 novembro 2025)
https://www.bentleymedia.com/es/newsitem/1759-supersports-the-most-driver-focused-bentley-ever

Bentley Motors — página oficial do Bentley Supersports
https://www.bentleymotors.com/en/models/supersports.html

Bentley Newsroom — comunicação de janeiro de 2026 sobre Supersports/FULL SEND e reservas da série
https://www.bentleymedia.com/en/newsitem/1770

Bentley Newsroom — “Batur Starts Design Revolution for Bentley” (21 agosto 2022)
https://www.bentleymedia.com/en/newsitem/1365-batur-starts-design-revolution-for-bentley

Car Design News — “Bentley Supersports: from gentleman’s express to tyre-smoking menace”
https://www.cardesignnews.com/cars/bentley-supersports-from-gentlemans-express-to-tyresmoking-menace/2662881

Bentley Newsroom — comunicação corporativa de 17 de março de 2026 sobre resultados e preparação das primeiras entregas do Supersports
https://www.bentleymedia.com/de/newsitem/1784-bentley-marks-seventh-consecutive-year-of-profitability-while-continuing-site-transformation

Nota editorial: a bibliografia pública fica concentrada nesta secção final. A rastreabilidade detalhada afirmação–fonte é mantida no processo interno de auditoria SPUNIQCARS.

Créditos

António Ricardo — Editor-Chefe da SPUNIQCARS
Direção editorial, definição do projeto, supervisão da investigação, decisões editoriais, revisão crítica e aprovação final.

Francisco Quântico — Editor Executivo da SPUNIQCARS / Assistente de Inteligência Artificial
Investigação documental, análise técnica e histórica, estruturação, desenvolvimento editorial, redação, consolidação e revisão do artigo. Francisco Quântico é a identidade utilizada pelo assistente de inteligência artificial nesta colaboração e não corresponde a uma pessoa humana.

Julieta Roma — Editora Executiva Adjunta da SPUNIQCARS
Participação no acompanhamento editorial no âmbito da continuidade criativa SPUNIQCARS. Julieta Roma é uma personagem ficcional e não lhe são atribuídas ações de investigação ou factos realizados no mundo real.

SPUNIQCARS — Sporty Unique Cars
Fundada por António Ricardo em 27 de fevereiro de 2018.