Cem anos depois do primeiro Super Sports, Crewe recupera o nome para um automóvel de 666 PS, tração traseira, dois lugares e menos de duas toneladas — não através da rejeição da tecnologia, mas escolhendo cuidadosamente aquela que merece ficar.

Quando menos pode significar mais
Há números que parecem suficientes para explicar um automóvel: 666 PS, 800 Nm, tração traseira, dois lugares e 1.995 kg. No novo Bentley Supersports, porém, os números são apenas a consequência visível de uma decisão bastante mais profunda. Pela primeira vez num Continental de estrada, toda a potência segue exclusivamente para as rodas traseiras; desaparece a componente híbrida da quarta geração do Continental GT, desaparece a tração integral e desaparece também uma parte substancial da massa que acompanhava essas soluções.
O resultado continua a ocupar o espaço físico de um grande turismo: 4.989 mm de comprimento, 2.852 mm entre eixos e uma presença que ninguém confundiria com a de um pequeno desportivo. Mas a filosofia mudou. Em vez de perguntar quanta tecnologia poderia acrescentar ao Continental GT, a Bentley começou por perguntar o que aconteceria se retirasse complexidade e conservasse apenas aquilo que contribuísse diretamente para o carácter pretendido.
Essa pergunta surgiu em setembro de 2024. Uma pequena equipa de engenharia recebeu autorização para construir um único protótipo de desenvolvimento com duas condições fundamentais: tração traseira e menos de duas toneladas. Seis semanas depois, o automóvel estava em pista. A experiência acabaria por convencer a própria direção da Bentley de que aquela hipótese merecia transformar-se num programa de produção. Internamente, o projeto recebeu um nome que ligava a experiência a uma das figuras mais extraordinárias da história da marca: Project Mildred.
Daí nasceu um Supersports diferente de todos os anteriores. O V8 biturbo de 4,0 litros desenvolve 666 PS e 800 Nm sem assistência elétrica; a transmissão ZF de dupla embraiagem e oito velocidades envia o esforço apenas para trás através de um diferencial autoblocante eletrónico; o chassis combina direção traseira, suspensão pneumática, amortecimento de duas câmaras e Bentley Dynamic Ride de 48 V; os discos CSiC dianteiros chegam aos 440 mm; e uma aerodinâmica profundamente funcional pode acrescentar até cerca de 300 kg de carga relativamente ao Continental GT Speed, segundo a formulação mais recente da Bentley.
Nada disto transforma o Supersports num exercício de austeridade. Há bancos aquecidos e reguláveis eletricamente, materiais nobres, personalização quase obsessiva e tecnologia suficiente para recordar que continuamos dentro de um Bentley. A diferença está na seleção. O automóvel não procura ser simples por princípio; procura eliminar aquilo que não serve a missão.
É também por isso que os 1.995 kg merecem mais atenção do que a ficha técnica deixa perceber. A maior contribuição individual para a redução de massa não veio de um componente exótico escondido algures no chassis. Veio da própria arquitetura: abandonar o sistema híbrido e a tração integral. Depois vieram o tejadilho em carbono, a eliminação dos lugares traseiros e respetivos cintos, a redução de isolamento acústico, a reconfiguração do sistema de áudio, componentes interiores mais leves e a remoção de determinados sistemas de assistência. Mildred não fez dieta. Mudou de metabolismo.
A história, contudo, começou muito antes de setembro de 2024. O nome Super Sports já tinha significado outra coisa em 1925; regressaria sob formas profundamente diferentes em 2009 e 2017 e seria influenciado, pelo caminho, pela experiência acumulada na competição e em projetos como o Continental GT3-R. Um século separa o primeiro Super Sports deste automóvel, e quase tudo na engenharia mudou durante esse intervalo. O que permaneceu foi uma pergunta: até onde pode a Bentley levar um grande turismo quando decide aproximá-lo deliberadamente do condutor? Para compreender a resposta de 2026, temos primeiro de regressar a 1925.
1925 — Antes de Supersports ser Supersports
Em 1925, a designação ainda se escrevia em duas palavras: Super Sports. O automóvel que a recebeu pertencia à família do Bentley 3 Litre, a máquina que ajudara a estabelecer a reputação da jovem marca britânica através de uma combinação pouco habitual de resistência, velocidade e robustez. A Bentley não estava ainda a criar uma subfamília de produto com regras próprias. Estava a procurar levar mais longe uma fórmula que já tinha demonstrado aquilo de que era capaz.
O 3 Litre era tecnicamente ambicioso para o seu tempo. O quatro cilindros utilizava árvore de cames à cabeça, quatro válvulas por cilindro, duas velas por cilindro e ignição por magnetos, soluções que refletiam a convicção de W.O. Bentley de que desempenho e resistência não eram objetivos incompatíveis. A competição ajudaria a provar o princípio, incluindo as primeiras grandes afirmações da marca em Le Mans.
O Super Sports elevou a potência para cerca de 85 bhp e combinou-a com um chassis mais curto e leve. A própria Bentley identifica-o como o primeiro automóvel da marca capaz de ultrapassar 100 mph e regista apenas 18 exemplares produzidos. Num período em que a Bentley fornecia frequentemente o chassis para receber carroçarias executadas por empresas especializadas, falar num Super Sports de 1925 implica também aceitar que a aparência final podia variar de exemplar para exemplar.

O contexto desportivo reforçava a obsessão pela velocidade sustentada. Em Montlhéry, o recém-inaugurado circuito francês de alta velocidade tornar-se-ia palco de recordes importantes para a Bentley e para algumas das pessoas que orbitavam a marca. Em 1925, John Duff e Woolf Barnato percorreram mais de 2.280 milhas em 24 horas, a uma média superior a 95 mph, estabelecendo uma série de recordes. Quatro anos depois, outra história extraordinária naquele mesmo anel ligaria definitivamente o nome Mildred à memória da Bentley.
Seria tentador olhar para o automóvel atual e procurar uma linha técnica direta até estes 18 carros. Ela não existe. O Super Sports de 1925 e o Supersports contemporâneo pertencem a mundos de engenharia, segurança, aerodinâmica e utilização incomparáveis. A relação relevante é outra: ambos nasceram da vontade de descobrir o que aconteceria quando uma Bentley já rápida fosse deliberadamente tornada mais focada, mais leve e mais próxima do desempenho. Partilharam uma intenção. Utilizaram ferramentas separadas por um século de engenharia.
Uma linhagem que não segue uma fórmula
Em 2009, Super Sports tornou-se Supersports. O W12 biturbo de 5.998 cm³ passou a produzir 630 PS e 800 Nm, associado a uma transmissão automática ZF de seis velocidades com Quickshift e tração integral. A Bentley anunciou 0–100 km/h em 3,9 segundos e 329 km/h, num automóvel de dois lugares que reduzia aproximadamente 100 kg relativamente ao Continental GT de referência e podia utilizar gasolina ou E85 bioetanol.
O Coupé foi seguido pelo Continental Supersports Convertible, que recuperou quatro lugares. Um Convertible Supersports conduzido por Juha Kankkunen estabeleceu em 2011 um recorde de velocidade sobre gelo de 330,695 km/h; a Bentley assinalou o feito com 100 exemplares do Supersports Convertible ISR, com 640 PS.
A competição voltou a entrar explicitamente na história com o Continental GT3, de tração traseira, e depois com o Continental GT3-R de estrada. Produzido em 300 unidades, o GT3-R utilizava um V8 biturbo de 580 PS e 700 Nm, dois lugares, tração integral e vetorização de binário através dos travões. O GT3-R não foi o pai do Supersports seguinte. Foi um dos seus professores.
2017 — Quando o Supersports acumulava para ir mais longe
Em janeiro de 2017, a Bentley apresentou um Continental Supersports de segunda geração com W12 biturbo de 6,0 litros, 710 PS e 1.017 Nm. A transmissão automática de oito velocidades e a tração integral com distribuição nominal de 40:60 trabalhavam com uma evolução da vetorização de binário por travagem vinda do GT3-R. A Bentley anunciou 0–100 km/h em 3,5 segundos e 336 km/h.

Regressaram os quatro lugares e a produção foi limitada a 710 exemplares, em correspondência com os 710 PS. Era quase o inverso conceptual de Project Mildred: em vez de retirar sistemas fundamentais para descobrir o que restava, integrava potência, tração, travagem, eletrónica e luxo até ao limite permitido pela plataforma. O nome nunca exigiu que a engenharia repetisse uma fórmula anterior; exigiu que a Bentley levasse mais longe a personalidade dinâmica do automóvel que tinha em mãos.
Batur — Antes de mudar a engenharia, mudou a linguagem
Apresentado em 2022, o Mulliner Batur foi descrito pela Bentley como o início de uma revolução de design. Produzido numa série extremamente limitada e baseado ainda na arquitetura W12, não antecipava mecanicamente o Supersports. A sua importância estava sobretudo na linguagem visual que começava a preparar a Bentley para uma nova fase.

Sob a direção de design de Andreas Mindt, com Tobias Suehlmann responsável pelo exterior e Andrew Hart-Barron pelo interior, o Batur alterou proporções visuais, superfícies, assinatura luminosa e tratamento gráfico. A Bentley afirmava então que essa linguagem ajudaria a definir os seus futuros automóveis, incluindo um primeiro modelo totalmente elétrico então previsto para 2025. Essa previsão pertence ao contexto de 2022 e não deve ser confundida com o que efetivamente aconteceu posteriormente.
A quarta geração já fornecia proporções muito fortes, superfícies mais limpas e uma linguagem visual que devia alguma coisa à mudança anunciada pelo Batur. Project Mildred não nasceu do Batur e o Supersports não é uma derivação mecânica dele. A relação é de design.
Setembro de 2024 — A pergunta que começou tudo
Em julho de 2024, a Bentley concluiu a produção do W12, depois de mais de duas décadas e mais de 105.000 unidades produzidas. A proximidade cronológica com Project Mildred é relevante, mas não prova causalidade. Em setembro surgiu a pergunta: como se comportaria um Continental GT com tração traseira e menos de duas toneladas? Uma pequena equipa recebeu autorização para construir um único mule de desenvolvimento; cerca de seis semanas depois, o protótipo estava em pista.
Não existe fundamento suficiente para identificar com segurança o primeiro circuito, primeiro piloto, massa exata, potência, matrícula, VIN, cor ou configuração detalhada daquele mule. O que sabemos é mais importante: membros da direção conduziram-no, a reação foi favorável e a hipótese começou a demonstrar potencial para produção.
Frank-Steffen Walliser descreveu posteriormente o Supersports como o primeiro projeto que acompanhou integralmente desde o início após a chegada à Bentley. A sua longa carreira anterior na Porsche é factual, mas não autoriza transformar Project Mildred numa suposta “Porscheização” da Bentley.
Alistair Corner, Head of Product Requirements and Attributes, esteve diretamente envolvido; Darren Purvin, Project Leader para Continental GT, GTC e Flying Spur, descreveu igualmente a génese como uma discussão sobre até onde poderiam ser levadas as capacidades dinâmicas do Continental existente. Em março de 2025, o programa recebeu aprovação. A pequena equipa inicial explica a origem; centenas de colegas seriam necessários para transformar a experiência num Bentley de produção. Foi aí que Project Mildred começou verdadeiramente a existir.
Porque se chamava Mildred
Mildred Mary Petre Bruce, também conhecida como Mrs Victor Bruce, destacou-se no automobilismo, aviação e motonáutica. Em 1929 levou um Bentley 4½ Litre para Montlhéry e conduziu-o sozinha durante 24 horas. A Bentley regista aproximadamente 2.164 milhas — cerca de 3.482 km — e uma média superior a 89 mph, estabelecendo um recorde mundial solo.
Segundo a narrativa histórica recuperada pela Bentley, Mildred não tinha conduzido aquele 4½ Litre antes do próprio dia; nas inclinações de Montlhéry a velocidade podia aproximar-se das 105 mph, a repetição provocava tonturas e a tentativa incluiu uma paragem prolongada para reabastecimento e ajustes. Há até o episódio em que acabou por engolir gasolina durante uma operação relacionada com combustível. Não é a solução de hidratação que a SPUNIQCARS recomenda, mas ajuda a colocar o feito no seu tempo.
O chassis KM3077, matriculado YV 7263, tinha sido entregue em maio de 1928 e tivera como primeiro proprietário H.R.S. “Tim” Birkin. Era um 4½ Litre naturalmente aspirado, não um Blower. Pouco mais de uma semana depois do recorde, competiu em Le Mans em 1929 com o número 11, conduzido por Bernard Rubin e Lord Howe, abandonando com problemas de ignição.
A identidade histórica do chassis sobreviveu, mas o automóvel recebeu alterações ao longo da vida, incluindo mudança de motor e diferentes carroçarias. Project Mildred encontrou, assim, uma designação apropriada: não por parentesco mecânico, mas pela curiosidade de descobrir até onde podia ir um Bentley.
666 PS e nenhum eletrão a empurrar as rodas
O Supersports regressou. O W12, não. No centro está um V8 biturbo de 3.996 cm³, sem componente híbrida. A especificação Supersports inclui uma estrutura do crankcase reforçada, cabeças revistas e turbocompressores maiores.
O resultado são 666 PS — 490 kW ou 657 bhp — e 800 Nm, com 166,5 PS por litro. Não encontrámos documentação Bentley que atribua aos 666 PS qualquer significado simbólico: são 666 PS porque o motor produz 666 PS.
Permanecem fora do corpo factual dados como pressão máxima de sobrealimentação, taxa de compressão, diâmetro e curso, especificação interna de pistões e bielas, fabricante e referência dos turbocompressores, pressão de injeção ou regimes exatos de potência e binário enquanto não existir documentação robusta.
Entre o V8 e as rodas traseiras encontra-se uma transmissão ZF de dupla embraiagem e oito velocidades, com embraiagens reforçadas e estratégia de passagem específica. A respiração do V8 termina num sistema Akrapovič integralmente em titânio; a Bentley sublinha a sonoridade natural do V8, sem necessidade de amplificação artificial no habitáculo.
No lançamento, a Bentley estimava 0–100 km/h em 3,7 segundos e aproximadamente 310 km/h. A informação atual passou para 3,6 segundos e 320 km/h, sendo a aceleração associada pela marca ao pneu de performance opcional instalado como equipamento original. Não existe motor elétrico a acrescentar binário e não existe eixo dianteiro a receber potência. Os 800 Nm têm apenas uma direção possível: para trás.
A revolução está atrás
O Supersports tornou-se o primeiro Continental GT de estrada a enviar toda a potência exclusivamente às rodas traseiras. A ressalva “de estrada” importa: o Continental GT3 de competição já tinha utilizado tração traseira.
Os 800 Nm chegam ao eixo traseiro através da ZF 8DCT e de um diferencial autoblocante eletrónico, eLSD, que trabalha em conjunto com vetorização através dos travões. São mecanismos complementares, não duas designações para a mesma coisa.

A via traseira foi alargada em 16 mm relativamente ao Continental GT de referência. A direção às quatro rodas permanece e foi recalibrada, tal como direção, suspensão, controlo de tração e ESC. O objetivo não é fingir que a eletrónica desapareceu, mas utilizá-la de forma compatível com a nova arquitetura.
Menos de duas toneladas — não foi dieta, foi metabolismo
A meta estava presente desde setembro de 2024: menos de duas toneladas. A especificação atual anuncia 1.995 kg de massa sem carga. A Bentley descreve o Supersports como quase meia tonelada mais leve do que o Continental GT de referência, como o Bentley de estrada mais leve em 85 anos e como a redução de massa mais extrema realizada pela marca.
A maior contribuição individual veio do sistema propulsor: substituir a arquitetura híbrida e de tração integral por um conjunto exclusivamente térmico e de tração traseira. Mildred não fez dieta. Mudou de metabolismo.
Depois vieram tejadilho em fibra de carbono, eliminação dos bancos e cintos traseiros, redução de isolamento acústico, reconfiguração do áudio, remoção de alguns sistemas de assistência, estrutura traseira leve em carbono e bancos dianteiros específicos mais leves e baixos, ainda com regulação elétrica de 11 vias e aquecimento.

A Bentley não fornece uma decomposição completa que permita construir uma tabela credível de quilogramas poupados peça a peça. Não a inventamos. Chegar aos 1.995 kg não tornou o Supersports pequeno; tornou-o extraordinariamente mais leve para aquilo que continua a ser.
Um chassis que não confunde pureza com primitivismo
Na frente, o Supersports utiliza suspensão de braços duplos em alumínio; atrás, multilink. As molas pneumáticas permanecem e os amortecedores de duas câmaras permitem controlar eletronicamente compressão e extensão de forma independente.
O Bentley Dynamic Ride de 48 V pode gerar até 1.300 Nm de binário de reação antibalanço em cerca de 0,3 segundos. Estes 1.300 Nm representam a atuação do controlo ativo do rolamento, não binário do motor.
Direção traseira, amortecimento, Dynamic Ride, eLSD, vetorização por travagem, controlo de tração e ESC formam uma rede sofisticada. Seria errado apresentar o Supersports como revolta analógica: não é primitivismo, mas tecnologia selecionada para servir uma arquitetura mecanicamente mais direta.
440 mm para parar Mildred
Os discos CSiC dianteiros medem 440 mm e utilizam pinças de dez pistões; atrás são 410 mm e quatro pistões. A Bentley apresenta o conjunto como o maior sistema de travagem automóvel do mundo, afirmação que preservamos como alegação da marca.
As jantes têm 22 polegadas, são em alumínio forjado e maquinado e foram desenvolvidas em colaboração com a Manthey Racing. Os pneus standard são Pirelli P Zero; os P Zero Trofeo RS são opcionais.

Segundo a Bentley, a configuração correspondente pode atingir até 1,3 g de aceleração lateral e permitir velocidades em curva aproximadamente 30% superiores às do Continental GT Speed. Os 3,6 segundos dos 0–100 km/h da especificação atual são associados pela marca ao pneu de performance opcional instalado como equipamento original.
Mais de 300 kg que não estão na balança
No lançamento, a Bentley afirmou que o pacote aerodinâmico produzia mais de 300 kg adicionais de downforce relativamente ao Continental GT Speed; documentação posterior passou a usar até 300 kg adicionais. Preservamos ambas com contexto, sem inventar velocidade de referência ou carga absoluta.
A frente recebeu novo para-choques inferior e o maior splitter utilizado até então num Bentley de estrada, canais de refrigeração e dois pares sobrepostos de dive planes por canto. Elementos laterais em carbono prolongam o trabalho; nas asas dianteiras surgem lâminas em forma de B, motivo visual desenvolvido no design e tornado funcional. Num projeto em que forma e função negociaram cada centímetro, até uma letra teve de arranjar trabalho.

Atrás, a construção do para-choques foi revista, existem aberturas associadas às cavas, um grande difusor e uma asa traseira fixa de uma só peça. Splitter, dive planes, saias, lâminas, difusor e asa devem ser entendidos como um conjunto.

A distribuição estática de massas é 54:46 frente/traseira; a aerodinâmica pode deslocar o equilíbrio de carga para trás com a velocidade. Não significa que a massa física migre, mas que mudam as cargas verticais exercidas sobre os eixos.
Primeiro engenharia, depois desenho
Project Mildred começou com uma pergunta de engenharia, não com um desenho. A base era a quarta geração do Continental GT, com 4.989 mm de comprimento, 2.187 mm de largura incluindo espelhos, 1.391 mm de altura e 2.852 mm entre eixos. Sob as superfícies permanece a estrutura monocoque de aço e alumínio da família Continental.
Robin Page ocupava a liderança de Design durante o desenvolvimento, mas o Supersports resultou de trabalho coletivo. Domen Rucigaj liderava Exterior Design na fase relevante. Entre as propostas, o trabalho de Ilya Razumov assumiu importância particular, incluindo o motivo B nas asas, enquanto Yasu Jordan Sato participou igualmente através de desenhos e exploração formal.
O processo utilizou Blender e um modelo físico à escala 1:3. A relação com o Batur permanece na evolução da linguagem visual, não numa genealogia mecânica. A quarta geração já fornecia proporções muito fortes; o Supersports não precisava de as substituir, mas de lhes acrescentar uma finalidade diferente.

Dois lugares, mas ainda um Bentley
Há fibra de carbono, bancos específicos e apenas dois lugares, mas continuam presentes couro, Dinamica, regulação elétrica, aquecimento e atenção aos materiais. Os lugares traseiros e cintos desapareceram; a zona recebeu uma estrutura leve em carbono parcialmente revestida, com menos isolamento acústico e áudio reconfigurado.

Darren Day explicou que os pontos fundamentais da arquitetura e os requisitos de segurança permaneceram, enquanto posição, linhas, cores, materiais e bancos foram trabalhados. Os bancos foram desenvolvidos através de protótipos físicos; Jonathan Stoker participou nesse trabalho. Colour, Materials and Finish contou com profissionais como Andrea Jensen e Sophie Hesketh.

O Coupé de 2009 tinha dois lugares; o Convertible recuperou quatro; o GT3-R voltou a dois; o Supersports de 2017 regressou a quatro; Project Mildred elimina novamente o banco traseiro. O Supersports nunca teve uma receita fixa. Teve uma intenção recorrente.
Em 2026, essa intenção exige dois lugares, mas continua a exigir que os ocupantes saibam, pelo toque, posição, materiais e equipamento, que estão num Bentley. Não é um Bentley menos sofisticado. É um Bentley que parece esconder menos aquilo que pretende ser.
500 carros, milhares de maneiras de serem diferentes
A produção está limitada a 500 exemplares, todos individualmente numerados. Em janeiro de 2026, antes do início da produção, a Bentley anunciou que os 500 estavam reservados. “Reservados” é a formulação documentalmente segura.

A Bentley definiu cinco temas principais — Daybreak, Skies, Meteorite, Snowstorm e Nightfall — e propostas Mulliner ainda mais específicas. A paleta principal inclui 24 cores exteriores e a marca anuncia mais de 2.000 combinações possíveis para o interior.
Entre as propostas aparece também um grafismo com o número 8 integrado na grelha e coordenado com o banco do condutor. A Bentley não fornece base suficiente para lhe atribuir um significado específico, pelo que o 8 continua simplesmente a ser 8.
Project Mildred começou com uma equipa pequena a retirar coisas de um Continental GT. Quando os 500 automóveis chegarem aos clientes, poucos serão obrigados a parecer iguais. A simplificação da arquitetura abriu espaço para uma das coisas que a Bentley sabe fazer com particular entusiasmo: complicar a escolha das cores.
De Mildred a FULL SEND
Project Mildred já existia quando surgiu a ideia de FULL SEND. A hipótese nascera em setembro de 2024, o primeiro mule fora construído semanas depois e o programa recebera aprovação em março de 2025. A ideia do filme surgiu posteriormente.
O automóvel utilizado por Travis Pastrana recebeu travão de mão hidráulico, alterações específicas na gestão do eLSD, configuração de ESC e software preparado para manobras de filmagem. No comando do travão de mão foi gravado o nome Mildred. Estas modificações não representam integralmente a especificação dos 500 carros de cliente.

As filmagens decorreram em Crewe entre 26 e 28 de setembro de 2025. Comunicações Bentley identificam de forma diferente o ano do 3 Litre Super Sports histórico utilizado no contexto do filme, aparecendo 1925 e 1926; enquanto a divergência não for resolvida, o artigo não atribui um ano específico àquele exemplar.
Depois da missão diante das câmaras, o automóvel FULL SEND foi destinado à Bentley Heritage Collection. Mildred aprendeu a andar antes de aprender a fazer fumo.
Crewe prepara os 500
A montagem decorrerá em Crewe, casa histórica da produção Bentley desde 1946. “Construído à mão” descreve uma realidade artesanal importante, sobretudo no acabamento e montagem, mas não significa que todos os componentes sejam fabricados manualmente dentro do complexo.
Conhecemos alguns parceiros explicitamente: Akrapovič no escape e Manthey Racing no desenvolvimento das jantes. Para muitos outros componentes, incluindo determinados elementos em carbono, a documentação pública não permite identificar com segurança fornecedor, processo ou local de produção.
A Bentley anunciou inicialmente o arranque da produção no quarto trimestre de 2026 e primeiras entregas no início de 2027. Em março de 2026, porém, uma comunicação posterior da marca passou a indicar que estavam em curso os preparativos para as primeiras entregas ainda durante 2026. Cada exemplar será individualmente numerado e poderá receber uma configuração profundamente personalizada. Entre o primeiro mule e estes 500 automóveis existe praticamente tudo aquilo que separa uma boa ideia de um automóvel real.
Um século depois, a intenção permanece
Em 1925, 85 bhp, um chassis mais curto e menos massa bastaram para transformar o 3 Litre Super Sports no primeiro Bentley capaz de ultrapassar 100 mph. Cem anos depois, os instrumentos são quase irreconhecíveis: 666 PS, 800 Nm, dupla embraiagem, diferencial eletrónico, direção traseira, suspensão pneumática, controlo ativo do rolamento, travões CSiC de 440 mm e aerodinâmica profundamente funcional.
Não existe uma linhagem mecânica direta entre os dois automóveis. Em 2009 Supersports significou W12, tração integral, dois lugares e FlexFuel; o Convertible recuperou quatro lugares; o GT3-R trouxe outras lições; em 2017 significou 710 PS, quatro lugares e integração tecnológica. Project Mildred voltou a mudar a resposta.
Em vez de começar por acrescentar sistemas, começou por perguntar o que aconteceria se a arquitetura fosse reorganizada em torno da tração traseira e de uma massa inferior a duas toneladas. O resultado não rejeita a modernidade: o chassis continua repleto de eletrónica, o interior sofisticado e a aerodinâmica resulta de ferramentas inexistentes no tempo de W.O. Bentley. O que mudou foi a prioridade atribuída a cada sistema.
É por isso que os 1.995 kg talvez contem melhor a história do que os 666 PS. A Bentley não tentou construir o automóvel mais simples possível. Tentou construir um Continental GT em que cada camada tivesse de justificar a sua presença.
Mildred Mary Petre Bruce passara 24 horas sozinha num Bentley em Montlhéry para descobrir até onde máquina e pessoa conseguiriam ir. FULL SEND levou a curiosidade para o espetáculo, Crewe terá de a transformar em 500 automóveis e os futuros proprietários descobrirão quanto da experiência do primeiro mule sobreviveu ao percurso entre pista de testes, homologação e produção.
O Supersports regressou. Não porque a Bentley tenha encontrado novamente a receita de 1925. Mas porque voltou a fazer a mesma pergunta.

Quadro técnico consolidado
| Campo | Especificação / nota |
|---|---|
| Modelo | Bentley Supersports |
| Base | Quarta geração do Bentley Continental GT |
| Carroçaria | Grande turismo coupé |
| Lugares | 2 |
| Apresentação | 13 de novembro de 2025, Nova Iorque |
| Produção | 500 exemplares, individualmente numerados |
| Estado da série | 500 exemplares anunciados como reservados em janeiro de 2026 |
| Local de produção | Crewe, Inglaterra |
| Início de produção | Q4 2026 |
| Primeiras entregas | Calendário inicialmente apontado para início de 2027; comunicação Bentley de março de 2026 passou a indicar primeiras entregas ainda em 2026. |
| Comprimento | 4.989 mm |
| Largura | 2.187 mm, incluindo espelhos |
| Altura | 1.391 mm |
| Distância entre eixos | 2.852 mm |
| Via traseira | +16 mm vs. Continental GT de referência |
| Massa sem carga | 1.995 kg |
| Distribuição estática | 54:46, frente/traseira |
| Estrutura base | Monocoque em aço e alumínio |
| Tejadilho | Fibra de carbono |
| Motor | V8 biturbo, exclusivamente térmico |
| Cilindrada | 3.996 cm³ |
| Alterações do motor | Crankcase reforçado, cabeças revistas, turbocompressores maiores |
| Potência | 666 PS / 490 kW / 657 bhp |
| Potência específica | 166,5 PS/l |
| Binário | 800 Nm |
| Sistema híbrido | Não |
| Tração | Traseira |
| Transmissão | ZF DCT de 8 velocidades |
| Transmissão — alterações | Embraiagens reforçadas e estratégia de passagem específica |
| Diferencial | eLSD traseiro |
| Direção traseira | Sim, recalibrada |
| Suspensão dianteira | Duplos triângulos em alumínio |
| Suspensão traseira | Multilink |
| Elementos elásticos | Suspensão pneumática |
| Amortecimento | Duas câmaras; compressão e extensão controladas independentemente |
| Controlo de rolamento | Bentley Dynamic Ride 48 V; até 1.300 Nm em ~0,3 s |
| Travões dianteiros | CSiC, 440 mm, 10 pistões |
| Travões traseiros | CSiC, 410 mm, 4 pistões |
| Jantes | 22'', alumínio forjado e maquinado; desenvolvimento com Manthey Racing |
| Pneus | Pirelli P Zero; P Zero Trofeo RS opcionais |
| 0–100 km/h | 3,6 s com pneu de performance opcional OE, segundo Bentley |
| 0–60 mph | 3,4 s |
| Velocidade máxima | 320 km/h |
| Estimativa de lançamento | 0–100 km/h 3,7 s; ~310 km/h |
| Aceleração lateral | Até 1,3 g, segundo Bentley, na configuração correspondente |
| Aerodinâmica | Splitter, dive planes, saias, lâminas B funcionais, aberturas traseiras, difusor e asa fixa |
| Carga aerodinâmica adicional | Lançamento: mais de 300 kg; posterior: até 300 kg vs. Continental GT Speed |
| Escape | Akrapovič integralmente em titânio |
| Bancos | Específicos, mais leves, posição inferior, 11 vias elétricas e aquecimento |
| Zona traseira | Sem bancos/cintos; estrutura leve em carbono parcialmente revestida |
| Materiais interiores | Couro, Dinamica e fibra de carbono |
| Personalização | 5 Design Themes; 24 cores exteriores principais; >2.000 combinações interiores |
| Project Mildred | Conceito em setembro de 2024; primeiro mule em cerca de seis semanas |
| Aprovação do programa | Março de 2025 |
| FULL SEND | Automóvel especialmente modificado para filmagem; não representa integralmente a especificação dos 500 carros |
Dados não divulgados ou não confirmados
Taxa de compressão; diâmetro e curso; pressão máxima de sobrealimentação; fabricante/referência e geometria dos turbocompressores; especificação de pistões, bielas e cambota; pressão/tipologia detalhada da injeção; regimes exatos de potência e binário; relações individuais da caixa e relação final; dimensões dos pneus; decomposição peça a peça da redução de massa. Estes dados não são inventados nem transferidos de outras variantes.
Fontes e referências documentais
Bentley Motors / Bentley Newsroom — “Supersports: the most driver-focused Bentley ever” (13 novembro 2025)
https://www.bentleymedia.com/es/newsitem/1759-supersports-the-most-driver-focused-bentley-ever
Bentley Motors — página oficial do Bentley Supersports
https://www.bentleymotors.com/en/models/supersports.html
Bentley Newsroom — comunicação de janeiro de 2026 sobre Supersports/FULL SEND e reservas da série
https://www.bentleymedia.com/en/newsitem/1770
Bentley Newsroom — “Batur Starts Design Revolution for Bentley” (21 agosto 2022)
https://www.bentleymedia.com/en/newsitem/1365-batur-starts-design-revolution-for-bentley
Car Design News — “Bentley Supersports: from gentleman’s express to tyre-smoking menace”
https://www.cardesignnews.com/cars/bentley-supersports-from-gentlemans-express-to-tyresmoking-menace/2662881
Bentley Newsroom — comunicação corporativa de 17 de março de 2026 sobre resultados e preparação das primeiras entregas do Supersports
https://www.bentleymedia.com/de/newsitem/1784-bentley-marks-seventh-consecutive-year-of-profitability-while-continuing-site-transformation
Nota editorial: a bibliografia pública fica concentrada nesta secção final. A rastreabilidade detalhada afirmação–fonte é mantida no processo interno de auditoria SPUNIQCARS.
Créditos
António Ricardo — Editor-Chefe da SPUNIQCARS
Direção editorial, definição do projeto, supervisão da investigação, decisões editoriais, revisão crítica e aprovação final.
Francisco Quântico — Editor Executivo da SPUNIQCARS / Assistente de Inteligência Artificial
Investigação documental, análise técnica e histórica, estruturação, desenvolvimento editorial, redação, consolidação e revisão do artigo. Francisco Quântico é a identidade utilizada pelo assistente de inteligência artificial nesta colaboração e não corresponde a uma pessoa humana.
Julieta Roma — Editora Executiva Adjunta da SPUNIQCARS
Participação no acompanhamento editorial no âmbito da continuidade criativa SPUNIQCARS. Julieta Roma é uma personagem ficcional e não lhe são atribuídas ações de investigação ou factos realizados no mundo real.
SPUNIQCARS — Sporty Unique Cars
Fundada por António Ricardo em 27 de fevereiro de 2018.
