Lexus LFA: o V10 que ensinou a Lexus a cantar — do sonho LF-A ao laboratório Code X

Lexus LFA de produção visto de três quartos dianteiro Lexus LFA: um supercarro de motor central-dianteiro, estrutura maioritariamente em CFRP e produção limitada a 500 unidades. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Dez anos de desenvolvimento, uma estrutura de carbono criada de raiz, 500 automóveis construídos à mão e um V10 de 9.000 rpm: a história completa do supercarro que mudou a Lexus — e continuou a evoluir em competição.

Há automóveis que impressionam pelos números e há automóveis que alteram a ideia que tínhamos de uma marca. O Lexus LFA pertence à segunda categoria — embora, com 560 cv, 325 km/h e um V10 capaz de girar a 9.000 rpm, também não chegue propriamente desarmado à primeira.

Apresentado em versão de produção no Salão Automóvel de Tóquio de 2009, o LFA foi o resultado de quase uma década de desenvolvimento, ensaios no Nürburgring e aprendizagem industrial. A Lexus não se limitou a construir um supercarro: criou processos próprios para fabricar compósitos de fibra de carbono, desenvolveu com a Yamaha um motor exclusivo, montou cada exemplar à mão e transformou a competição num laboratório aberto.

Essa história não terminou quando o 500.º automóvel saiu de Motomachi, em dezembro de 2012. Continuou no LFA Nürburgring Package, no recorde de 7:14,64 na Nordschleife e, sobretudo, no radical LFA Code X — um protótipo experimental de 5,3 litros, monocoque integral em carbono, suspensão por push-rods e transmissão de dupla embraiagem. O Code X não foi uma série especial nem um sucessor comercial. Foi algo mais interessante: a pergunta que os engenheiros fizeram depois de já terem conseguido o aparentemente impossível.

Lexus LFA de produção visto de três quartos dianteiro
Lexus LFA: um supercarro de motor central-dianteiro, estrutura maioritariamente em CFRP e produção limitada a 500 unidades. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Antes do automóvel, a ambição

O programa começou em janeiro de 2000 como um projeto de investigação e desenvolvimento da Toyota Motor Corporation. Haruhiko Tanahashi assumiu a liderança de uma pequena equipa com liberdade pouco habitual: não havia uma plataforma existente para adaptar nem um catálogo de componentes a condicionar o resultado. Havia uma folha em branco e a intenção de criar um supercarro capaz de representar o ponto mais alto da Lexus.

Em 2001, o mestre de testes Hiromu Naruse ajudou a definir cerca de 500 atributos considerados essenciais, desde a afinação da suspensão até à forma do volante. Akio Toyoda, então ainda longe da presidência da empresa, juntou-se ao núcleo do projeto em 2002. A sua função foi simultaneamente técnica, estratégica e, mais tarde, desportiva: testou sucessivas evoluções e competiu sob o nome “Morizo”.

A árvore genealógica do LFA não tem um antepassado Lexus direto. O Toyota 2000GT constitui uma referência cultural na história dos grandes desportivos japoneses da empresa, mas não existe entre ambos uma continuidade mecânica ou de plataforma. Dentro da Lexus, o LFA tornou-se o vértice da família F e estabeleceu conhecimentos que depois seriam disseminados por outros projetos. A linhagem é, portanto, mais filosófica e tecnológica do que convencional.

LF-A: três conceitos, uma transformação estrutural

O primeiro protótipo funcional ficou concluído em junho de 2003. Em outubro de 2004, uma unidade fortemente camuflada rodou pela primeira vez na Nordschleife. A estreia pública aconteceu em janeiro de 2005, no Salão de Detroit, sob a designação LF-A. Aquele primeiro estudo tinha carroçaria e estrutura predominantemente em alumínio, unindo extrusões e peças fundidas através de soldadura, rebites e adesivos.

Lexus LF-A Concept de 2005
O primeiro LF-A Concept, apresentado no Salão de Detroit de 2005, utilizava uma arquitetura predominantemente em alumínio. Crédito: Lexus / Toyota Motor Corporation.

Em 2007 surgiu em Detroit um segundo conceito, mais próximo da produção. As proporções, a aerodinâmica, o habitáculo funcional e os emblemas F denunciavam que o projeto já não era apenas uma declaração de intenções. Por baixo da forma estava a maior decisão técnica de toda a gestação: abandonar a arquitetura de alumínio e passar para plástico reforçado com fibra de carbono, ou CFRP.

Lexus LF-A Concept de 2007
O segundo conceito, revelado em Detroit em 2007, aproximou a forma da produção e ocultava a decisiva mudança do alumínio para o CFRP. Crédito: Lexus / Toyota Motor Corporation.

A mudança obrigou a equipa a regressar a problemas que julgava resolvidos. Não existia, dentro da Lexus, capacidade industrial pronta para produzir aquela estrutura. Foi necessário desenvolver materiais, moldes, métodos de união, controlo de qualidade e até máquinas de tecelagem próprias. Em contrapartida, a carroçaria ficaria cerca de 100 kg mais leve do que uma solução equivalente em alumínio e significativamente mais rígida.

O LF-A Roadster, apresentado em Detroit em janeiro de 2008, foi a terceira e última expressão conceptual. Demonstrava a rigidez da estrutura em CFRP mesmo sem tejadilho e antecipava a asa traseira de acionamento automático do automóvel de produção. Não avançou para comercialização, mas cumpriu a sua missão: mostrar que a nova arquitetura não era uma experiência de laboratório com rodas, embora tivesse passado boa parte da vida precisamente em laboratórios e pistas.

Lexus LF-A Roadster Concept de 2008
O LF-A Roadster de 2008 demonstrou a rigidez da nova estrutura em carbono e antecipou a asa traseira ativa do modelo de produção. Crédito: Lexus.

Competir antes de vender

Em 2008 e 2009, ainda antes da apresentação definitiva, protótipos LF-A participaram nas 24 Horas do Nürburgring. Receberam equipamento de segurança, depósito de competição e alterações aerodinâmicas, mas mantiveram uma relação próxima com o projeto de estrada. O objetivo não era construir um palmarés publicitário à pressa: era sujeitar motor, transmissão, estrutura, travões, refrigeração, suspensão e equipa humana a condições que um programa convencional de ensaios dificilmente reproduziria.

Esta filosofia — desenvolver pessoas e automóveis através da competição — tornou-se uma das bases da futura Toyota Gazoo Racing. O LFA foi simultaneamente produto e instrumento de transformação: ensinou os engenheiros a trabalhar com carbono e mostrou à organização que um protótipo ainda secreto podia ser aperfeiçoado à vista do público, numa prova de 24 horas, sem que o céu empresarial desabasse.

Protótipo Lexus LF-A nas 24 Horas do Nürburgring
Antes da estreia comercial, o protótipo LF-A foi desenvolvido em competição nas 24 Horas do Nürburgring. Crédito: Toyota Motor Corporation / Gazoo Racing.

A estreia definitiva em Tóquio

A Lexus revelou oficialmente o LFA de produção a 21 de outubro de 2009, na antecâmara do 41.º Salão Automóvel de Tóquio. Tratava-se de um coupé de dois lugares, motor central-dianteiro e tração traseira, limitado a 500 unidades para todo o mundo. A produção decorreria entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012.

O posicionamento era inequívoco: topo da família F, demonstração tecnológica e automóvel de condução. A Lexus não procurou disfarçar o preço — cerca de 375.000 dólares no anúncio inicial — nem transformar a exclusividade numa desculpa para produzir um objeto estático. O LFA tinha de suportar utilização intensa, manter padrões de qualidade Lexus e entregar respostas coerentes à aproximação do limite.

Forma e proporções: um gran turismo esculpido pelo ar

Com 4.505 mm de comprimento, 1.895 mm de largura, apenas 1.220 mm de altura e 2.605 mm entre eixos, o LFA combina as proporções baixas de um supercarro com a presença de um coupé de grande turismo. Os balanços são curtos — 940 mm à frente e 960 mm atrás —, mas o capot conserva extensão suficiente para afirmar a arquitetura central-dianteira. O habitáculo recuado e baixo integra-se numa linha contínua que desce do tejadilho para as ilhargas.

Perfil lateral integral do Lexus LFA
O perfil de 4.505 mm combina capot longo, habitáculo recuado, altura de apenas 1.220 mm e balanços curtos. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

A filosofia L-finesse aparece aqui menos como decoração e mais como disciplina de superfícies. Linhas convexas transformam-se em concavidades sem interrupções bruscas; entradas de ar, ombros traseiros e arestas têm função térmica ou aerodinâmica. Os próprios espelhos foram desenhados para encaminhar ar para as tomadas colocadas sobre as ilhargas traseiras.

A traseira reúne elementos que se tornaram imediatamente reconhecíveis: grupos óticos afilados, três saídas de escape dispostas em triângulo, difusor profundo e asa retrátil. É uma composição dramática, mas não gratuita. Mesmo quando parece estar a posar, o LFA está a trabalhar — uma qualidade que muitos automóveis reivindicam e poucos conseguem manter depois de se acenderem as luzes do estúdio.

Traseira do Lexus LFA vista de três quartos
As três saídas de escape, o difusor em carbono, as tomadas laterais e a asa ativa definem a traseira do LFA. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

CFRP: quando a fábrica também teve de ser inventada

Na carroçaria em branco do LFA, o CFRP representa aproximadamente 65% da massa estrutural; ligas de alumínio correspondem aos restantes 35%. A solução permitiu poupar cerca de 100 kg relativamente a uma estrutura equivalente integralmente em alumínio, ao mesmo tempo que elevou a rigidez e a resistência.

A produção interna conjugou três processos. O pre-preg, fibra já impregnada com resina epóxi, foi reservado aos elementos estruturais principais, incluindo antepara, travessas e painéis. O RTM, ou moldação por transferência de resina, serviu estruturas secundárias, caixas de absorção, longarinas do tejadilho e piso. O C-SMC permitiu fabricar componentes superiores e peças de geometria complexa.

Nos primeiros quatro estágios da montagem da estrutura, as peças eram unidas por adesivo; os elementos finais de alumínio recorriam a fixações mecânicas. O LFA tornou-se o primeiro Lexus a utilizar colagem adesiva na montagem principal da carroçaria. O controlo do material incluiu teares desenvolvidos pela própria empresa e monitorização laser da integridade da fibra — uma ligação particularmente elegante à origem da Toyota na indústria têxtil.

Estrutura em fibra de carbono do Lexus LFA
Cerca de 65% da massa da carroçaria em branco é CFRP; a Lexus desenvolveu internamente processos e equipamento para o fabricar. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

A célula central em carbono assegura a proteção principal. À frente, uma caixa de deformação em CFRP absorve energia; atrás, a função cabe a um elemento de alumínio extrudido. As portas combinam painel interior de alumínio com pele exterior em G-SMC, um composto reforçado com fibra de vidro. O carbono não foi aplicado como verniz tecnológico: cada processo foi escolhido segundo a forma, a carga e a função da peça.

1LR-GUE: dez cilindros, 4.805 cm³ e uma resposta quase elétrica

O motor 1LR-GUE é um V10 atmosférico a 72 graus, com 4.805 cm³, duas árvores de cames por cabeça e quatro válvulas por cilindro. Desenvolvido em colaboração com a Yamaha, entrega 412 kW — 560 cv segundo a norma europeia — às 8.700 rpm e 480 Nm às 6.800 rpm. A linha vermelha situa-se nas 9.000 rpm.

Motor V10 1LR-GUE do Lexus LFA
O V10 atmosférico 1LR-GUE de 4.805 cm³ produz 560 cv às 8.700 rpm e 480 Nm às 6.800 rpm. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

As medidas internas, 88,0 mm de diâmetro e 79,0 mm de curso, confirmam uma arquitetura de curso curto, adequada a regimes elevados. A taxa de compressão é de 12,0:1. Cada cilindro dispõe de borboleta eletrónica individual, enquanto a distribuição Dual VVT-i, os coletores de escape de comprimentos equivalentes e os injetores de 12 orifícios ajudam a alargar a resposta. Segundo a Lexus, 90% do binário está disponível entre 3.700 e 9.000 rpm.

A lubrificação por cárter seco permite colocar o bloco mais baixo, reduzindo o centro de gravidade e assegurando alimentação de óleo sob acelerações laterais prolongadas. O conjunto tem dimensões próximas das de um V8 convencional e massa comparável à de um V6, uma compactação decisiva para recuar o motor no chassis.

O valor mais revelador talvez não caiba na tabela: o V10 pode subir do ralenti ao limite de rotação em cerca de seis décimos de segundo. Um ponteiro analógico convencional não conseguiria representar a variação com a rapidez necessária, razão pela qual o LFA adotou um conta-rotações TFT. Não foi um ecrã à procura de uma justificação; foi a mecânica a pedir pixels com alguma urgência.

Conta-rotações TFT do Lexus LFA
O painel TFT foi adotado porque a subida de regime do V10 era demasiado rápida para um ponteiro analógico convencional acompanhar. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Octave Harmony: o som como componente de engenharia

A Yamaha participou também na afinação acústica. A equipa chamou ao resultado Octave Harmony: uma assinatura que combina admissão, vibração mecânica e escape, alterando o equilíbrio entre frequências à medida que o regime aumenta. A inspiração declarada foi o som de um motor de Fórmula 1 em alta rotação, mas o objetivo não era imitá-lo; era dar ao V10 do LFA uma identidade própria dentro e fora do habitáculo.

O silenciador principal em titânio tem funcionamento de duas fases, comandado por válvula, adaptando o percurso dos gases ao regime. Canais acústicos conduzem frequências selecionadas para o habitáculo. Assim, o som não é um efeito acrescentado por altifalantes: nasce da admissão, da combustão e do escape, sendo depois tratado como qualquer outro fluxo do automóvel.

Transaxle traseira e distribuição de massas

A potência segue através de uma transmissão ASG de seis velocidades, montada em posição transaxle sobre o eixo traseiro e ligada ao motor por um tubo de torque rígido. A caixa robotizada de embraiagem simples é comandada por patilhas fixas à coluna e consegue passagens ascendentes em 0,20 segundos no programa mais rápido.

Existem quatro modos — Auto, Normal, Sport e Wet —, cada um com lógica específica para motor, caixa e travagem. Um diferencial autoblocante distribui o esforço pelas rodas traseiras. A posição da transmissão, do depósito e de outros componentes ajudou a alcançar uma distribuição de massas de 48:52 entre os eixos.

O caráter da ASG deve ser compreendido no contexto do projeto. Não procura disfarçar cada mudança como uma caixa automática tradicional; cria uma breve pontuação mecânica entre relações. O resultado exige participação do condutor, especialmente em estrada, mas preserva uma relação direta entre comando, embraiagem e transferência de carga.

Esquema técnico da arquitetura transaxle do Lexus LFA
A transmissão ASG de seis relações foi montada sobre o eixo traseiro, contribuindo para a distribuição de massas de 48:52. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Chassis: alumínio onde se move, carbono onde se resiste

A suspensão utiliza triângulos sobrepostos à frente e um esquema multilink atrás, com barras estabilizadoras nos dois eixos. Braços e outros componentes são produzidos em liga de alumínio. Os amortecedores monotubo, também em alumínio, resultam da aprendizagem acumulada no automóvel de competição do Nürburgring.

A direção de cremalheira tem assistência elétrica aplicada na coluna, relação de 14,3:1 e 2,35 voltas entre batentes. Ao evitar um sistema hidráulico acionado pelo motor, reduz perdas parasitas; ao fixar a coluna diretamente à estrutura central, procura preservar rigidez e informação no volante.

Componentes técnicos da suspensão do Lexus LFA
Triângulos sobrepostos à frente, multilink atrás e utilização extensiva de liga de alumínio orientam a afinação do chassis. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Travões, rodas e pneus

Os discos são de material carbono-cerâmico, perfurados e ventilados. À frente medem 390 × 34 mm e trabalham com pinças de alumínio de seis êmbolos; atrás têm 360 × 28 mm e pinças de quatro êmbolos. A escolha reduz massa não suspensa, melhora a resistência térmica e mantém consistência sob utilização repetida.

As jantes BBS forjadas de 20 polegadas medem 9,5J à frente e 11,5J atrás. Recebem pneus Bridgestone assimétricos de 265/35 ZR20 no eixo dianteiro e 305/30 ZR20 no traseiro. Mais do que preencher as cavas, o conjunto foi afinado como parte do sistema de suspensão, direção e travagem.

Jante BBS, disco carbono-cerâmico e pinça do Lexus LFA
Jantes BBS forjadas de 20 polegadas enquadram discos carbono-cerâmicos de 390 mm à frente e 360 mm atrás. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Aerodinâmica: 0,31 sem abandonar a carga

O coeficiente de resistência aerodinâmica é 0,31. O valor ganha significado porque o LFA não foi desenhado apenas para reduzir arrasto: precisava de refrigerar o grupo motopropulsor e gerar estabilidade a alta velocidade. O fundo plano, o difusor traseiro em carbono e a gestão do ar ao redor da carroçaria criam carga aerodinâmica sem recorrer a superfícies desproporcionadas.

A asa traseira ativa recolhe-se na carroçaria a baixa velocidade e eleva-se quando necessário, acrescentando apoio ao eixo traseiro. Uma pequena gurney flap reforça o efeito. Entradas dianteiras, saídas sobre o capot, condutas laterais e base dos retrovisores trabalham como partes do mesmo circuito de ar.

Asa traseira ativa e difusor do Lexus LFA
A asa traseira ativa, o fundo plano e o difusor em carbono conciliam estabilidade a alta velocidade com um Cd de 0,31. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Habitáculo: três zonas e um centro claro

A Lexus dividiu conceptualmente o interior em três áreas: mecânica, humana e de condução. A primeira expõe parte da estrutura e dos materiais; a segunda coloca os dois ocupantes perto do centro do automóvel; a terceira concentra comandos e informação em torno do condutor.

Os bancos combinam couro e Alcantara. Carbono mate e brilhante, metal escovado e pedais de alumínio forjado tornam visível a construção. A ergonomia permanece deliberadamente simples: volante de base plana, botão de arranque, patilhas, seletor de modos e o instrumento central dominam a experiência.

Habitáculo completo do Lexus LFA
O habitáculo organiza-se em zonas mecânica, humana e de condução, com os ocupantes próximos do centro do automóvel. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

O painel TFT integra um conta-rotações central, velocímetro digital, relação engrenada e informação dos sistemas. Um anel físico motorizado desloca-se para alterar a disposição dos dados. Acima das 9.000 rpm, o mostrador muda de cor; o condutor pode ainda programar avisos de mudança noutros regimes. Quando o motor arranca, os indicadores de pressão e temperatura reorganizam-se numa pequena cerimónia eletrónica — suficientemente teatral para ser memorável, suficientemente funcional para não parecer um fogo de artifício preso ao tablier.

Banco e materiais interiores do Lexus LFA
Couro, Alcantara, carbono mate e brilhante, metal escovado e pedais de alumínio forjado tornam visível a construção artesanal. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

Motomachi: 500 automóveis, um por dia

A produção começou a 15 de dezembro de 2010 numa área dedicada da fábrica de Motomachi, em Toyota City. Cerca de 170 a 175 trabalhadores selecionados — os números variam ligeiramente conforme o momento e a descrição da equipa — participavam na produção das peças de CFRP, pintura e montagem. A cadência máxima era de 20 unidades por mês, aproximadamente um automóvel por dia.

Cada V10 era montado por um único especialista e recebia a sua assinatura. Cada LFA tinha placa numerada e era configurado por encomenda, com uma escolha extensa de cores e acabamentos. O último exemplar, um Nürburgring Package branco, deixou a linha a 14 de dezembro de 2012. A limitação a 500 unidades não foi prolongada.

Montagem artesanal do Lexus LFA em Motomachi
Cada LFA foi montado à mão em Motomachi; o último dos 500 exemplares ficou concluído a 14 de dezembro de 2012. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

LFA Nürburgring Package: a versão de estrada mais concentrada

Apresentado publicamente no Salão de Genebra de 2011 e limitado oficialmente a 50 exemplares dentro das 500 unidades, o Nürburgring Package levou para a estrada uma afinação mais orientada para circuito. Não deve ser confundido com os LFA de competição: conservava homologação rodoviária e a arquitetura fundamental do modelo de série.

O motor recebeu alterações para reduzir perdas e passou de 412 para 420 kW, ou de 560 para 571 cv segundo a conversão métrica oficial. Em documentação britânica, os mesmos valores aparecem como 552 e 562 bhp. O aumento compensava o arrasto adicional causado pelo pacote aerodinâmico e mantinha os 3,7 segundos dos 0 aos 100 km/h e os 325 km/h de velocidade máxima.

A caixa reduziu o tempo mínimo de passagem de 0,20 para 0,15 segundos. A suspensão ganhou afinação própria e a altura ao solo diminuiu 10 mm. Jantes de malha exclusivas, pneus de alta aderência, spoiler dianteiro maior, pequenas aletas laterais, canards e uma asa traseira fixa em CFRP aumentaram a precisão e a carga aerodinâmica.

Lexus LFA Nürburgring Package em laranja visto de frente
O Nürburgring Package acrescentou aerodinâmica específica, suspensão 10 mm mais baixa e 571 cv. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.
Traseira do Lexus LFA Nürburgring Package com asa fixa
A asa traseira fixa em CFRP e o spoiler dianteiro maior aumentaram a carga aerodinâmica do pacote orientado para circuito. Crédito: Lexus / Toyota (GB) PLC.

7:14,64: o número que fechou o círculo

A 31 de agosto de 2011, o piloto de testes Akira Iida completou a Nordschleife em 7 minutos, 14 segundos e 64 centésimos. O LFA Nürburgring Package era legal para estrada e utilizava pneus Bridgestone Potenza RE070 de especificação normal. Naquele momento, a Lexus apresentou o resultado como a volta mais rápida de um automóvel de produção em configuração regular.

O recorde foi menos um golpe isolado do que a conclusão de uma relação iniciada em 2004, quando o primeiro protótipo camuflado chegou ao circuito. Sete anos de voltas, corridas, erros e revisões cabiam agora num tempo que qualquer cronómetro entendia.

Lexus LFA Nürburgring Package em pista
A 31 de agosto de 2011, Akira Iida completou a Nordschleife em 7:14,64 com um LFA legal para estrada. Crédito: Lexus / Toyota Motor Corporation.

LFA Code X: não uma edição, mas um laboratório

O LFA Code X foi revelado a 10 de janeiro de 2014 no Tokyo Auto Salon e estreou-se em competição no mesmo ano. A Toyota Gazoo Racing classificou-o explicitamente como veículo experimental destinado ao desenvolvimento de futuros automóveis desportivos. Apesar de conservar uma silhueta reconhecível, não era um LFA de produção com um kit aerodinâmico mais agressivo.

A estrutura passou a ser um monocoque integral em carbono. O V10 1LR-GUE serviu de base, mas a cilindrada aumentou de 4,8 para 5,3 litros. A suspensão adotou acionamento por push-rods e a transmissão passou a uma unidade de dupla embraiagem, comandada por patilhas. A potência, o binário, a massa e as relações da caixa não foram oficialmente divulgados nas fontes técnicas consultadas; preencher esses espaços com estimativas seria trocar engenharia por adivinhação, negócio em que a SPUNIQCARS não investe.

Lexus LFA Code X número 53 em pista
O LFA Code X de 2014 era um laboratório SP-PRO com V10 de 5,3 litros, estrutura integral em carbono e distância entre eixos de 2.800 mm. Crédito: Toyota Gazoo Racing.

As dimensões mostram a profundidade da transformação. O Code X media 4.710 mm de comprimento, 2.000 mm de largura e 1.200 mm de altura; a distância entre eixos cresceu para 2.800 mm. Face ao LFA de estrada, são mais 205 mm no comprimento oficial comparável e mais 195 mm entre eixos. A ficha contemporânea da equipa indicava pneus 330/40 R18, tração traseira e transmissão sequencial acionada por patilhas; a documentação histórica posterior especifica que essa caixa era de dupla embraiagem.

Em 2014, o automóvel n.º 53 foi confiado a Akira Iida, Juichi Wakisaka e Takuto Iguchi. Terminou as 24 Horas do Nürburgring em 11.º lugar da classificação geral e venceu a categoria SP-PRO, completando 151 voltas. O LFA n.º 48, mais próximo do modelo de produção, terminou em 13.º e venceu a SP8. Pela primeira vez, a Gazoo Racing venceu todas as classes em que participou nessa edição.

O Code X regressou em 2015, já como único LFA da equipa, com Masahiko Kageyama, Hiroaki Ishiura, Kazuya Oshima e Takuto Iguchi. A rigidez e a aerodinâmica foram profundamente revistas. Perto do fim surgiu um problema que impediu a utilização da sexta velocidade, mas o carro completou as 24 horas, terminou em 14.º da geral e voltou a vencer a SP-PRO.

O Code X revela a verdadeira dimensão do programa LFA. Depois de concluir a produção, a empresa não encerrou o conhecimento num museu. Alongou a plataforma, refez o monocoque, mudou a cinemática da suspensão, aumentou o V10 e testou uma nova transmissão em duas edições consecutivas de uma das provas mais severas do mundo. O nome LFA continuou, literalmente, em desenvolvimento.

Lexus LFA Code X em competição nas 24 Horas do Nürburgring
O Code X venceu a classe SP-PRO nas 24 Horas do Nürburgring de 2014 e 2015, mantendo o programa LFA vivo depois do fim da produção. Crédito: Toyota Gazoo Racing.

Especificações técnicas — Lexus LFA de produção

Categoria Especificação
Modelo Lexus LFA, especificação europeia de produção
Produção 15 de dezembro de 2010 a 14 de dezembro de 2012
Unidades 500 para todo o mundo; máximo de 20 por mês
Carroçaria / segmento Coupé de dois lugares; supercarro / grande turismo de altas prestações
Arquitetura Motor central-dianteiro longitudinal; tração traseira
Estrutura Célula e carroçaria em CFRP e ligas de alumínio; aproximadamente 65% CFRP e 35% alumínio na massa da carroçaria em branco
Comprimento 4.505 mm
Largura 1.895 mm
Altura 1.220 mm
Distância entre eixos 2.605 mm
Vias, dianteira / traseira 1.580 / 1.570 mm
Balanços, dianteiro / traseiro 940 / 960 mm
Massa em vazio 1.480 kg na ficha global europeia; 1.480–1.580 kg no press kit britânico, consoante configuração
Distribuição de massas 48:52, dianteira / traseira
Lotação 2
Motor 1LR-GUE, V10 atmosférico a 72°, gasolina, 4.805 cm³
Distribuição DOHC, 40 válvulas, Dual VVT-i
Diâmetro × curso 88,0 × 79,0 mm
Taxa de compressão 12,0:1
Alimentação Injeção eletrónica; borboleta individual eletrónica por cilindro; combustível de 95 RON ou superior
Lubrificação Cárter seco
Potência máxima 412 kW / 560 cv às 8.700 rpm
Binário máximo 480 Nm às 6.800 rpm
Regime máximo indicado 9.000 rpm
Potência específica Aproximadamente 116,5 cv/l
Transmissão ASG robotizada de seis velocidades, em posição transaxle traseira; patilhas na coluna
Tempo mínimo de passagem 0,20 s
Relações de caixa 1.ª 3,231; 2.ª 2,188; 3.ª 1,609; 4.ª 1,233; 5.ª 0,970; 6.ª 0,795; relação final 3,417
Diferencial Autoblocante
Suspensão dianteira Triângulos sobrepostos, barra estabilizadora, componentes em liga de alumínio
Suspensão traseira Multilink, barra estabilizadora, componentes em liga de alumínio
Amortecedores Monotubo em alumínio
Direção Cremalheira, assistência elétrica na coluna, relação 14,3:1, 2,35 voltas entre batentes
Travões dianteiros Discos carbono-cerâmicos ventilados e perfurados, 390 × 34 mm; pinças de alumínio de seis êmbolos
Travões traseiros Discos carbono-cerâmicos ventilados e perfurados, 360 × 28 mm; pinças de quatro êmbolos
Jantes dianteiras / traseiras BBS forjadas de alumínio, 20 × 9,5J / 20 × 11,5J
Pneus dianteiros / traseiros 265/35 ZR20 95Y / 305/30 ZR20 99Y
Aerodinâmica Fundo plano, difusor traseiro em carbono, asa traseira ativa com gurney flap
Coeficiente aerodinâmico Cd 0,31
0–100 km/h 3,7 s
Velocidade máxima 325 km/h
Depósito de combustível 73 litros
Emissões Euro 5; consumo e CO₂ não indicados na ficha global de lançamento aqui adotada

Nota técnica: algumas páginas britânicas de arquivo apresentam “1LR-GSE” na tabela, uma evidente gralha editorial. A designação oficial correta, confirmada pela Toyota Motor Corporation e pela documentação de competição, é 1LR-GUE.

Especificações adicionais — Nürburgring Package e LFA Code X

Parâmetro LFA Nürburgring Package LFA Code X (2014)
Natureza Versão homologada para estrada, opcional dentro da produção LFA Protótipo experimental de competição, classe SP-PRO
Quantidade 50 unidades segundo a comunicação oficial Protótipo de desenvolvimento; quantidade de chassis não divulgada
Motor 1LR-GUE V10 atmosférico, 4.805 cm³ V10 1LR-GUE de base, cilindrada aumentada para 5,3 litros
Potência 420 kW / 571 cv; 562 bhp na documentação britânica Não divulgada oficialmente
Binário Não foi divulgado valor diferente dos 480 Nm do LFA base Não divulgado oficialmente
Transmissão ASG de seis velocidades; passagens mínimas em 0,15 s Dupla embraiagem, comando por patilhas; relações não divulgadas
Estrutura Estrutura LFA em CFRP/alumínio Monocoque / estrutura integral em carbono
Suspensão Afinação de circuito; altura reduzida 10 mm Acionamento por push-rods; detalhes geométricos não divulgados
Aerodinâmica Spoiler dianteiro maior, aletas, canards e asa traseira fixa em CFRP Carroçaria e aerodinâmica de competição revistas; especificações de carga não divulgadas
Dimensões Dimensões-base do LFA; altura ao solo reduzida 4.710 × 2.000 × 1.200 mm
Distância entre eixos 2.605 mm 2.800 mm
Pneus Alta aderência, específicos do pacote; RE070 na volta de 7:14,64 330/40 R18 na ficha de 2014
Resultado de referência Nordschleife em 7:14,64, a 31 de agosto de 2011 11.º da geral e 1.º SP-PRO nas 24 Horas do Nürburgring de 2014; 151 voltas

Vídeo

Lexus LFA Nürburgring Package — volta de 7:14,64 à Nordschleife, com Akira Iida

A volta integral que fixou o tempo de 7:14,64 na Nordschleife. Vídeo: YOUCAR, a partir de material Lexus.

O legado: mais do que 500 automóveis

O LFA não gerou uma sucessão convencional de gerações. Gerou competências. A fabricação interna de CFRP, a colagem estrutural, o trabalho dos takumi, a integração entre simulação e pista e a utilização do Nürburgring como escola passaram a fazer parte do conhecimento da organização.

O próprio nome regressou ao centro da estratégia em dezembro de 2025, quando a Lexus apresentou um novo LFA Concept elétrico a bateria. A marca deixou claro que “LFA” já não identifica apenas um tipo de motor: representa técnicas e capacidades que devem ser preservadas, transmitidas e evoluídas. O conceito não transforma retroativamente o V10 num prólogo elétrico, nem permite antecipar uma versão de produção ainda não confirmada. Demonstra, isso sim, que o primeiro LFA ganhou uma qualidade rara: deixou de ser apenas um modelo e passou a ser um princípio.

O V10 continua a dominar a memória porque une resposta, rotação e som de forma extraordinária. Mas reduzir o LFA ao motor seria ignorar metade da obra. O que o torna especial é a coerência entre estrutura, posição dos componentes, aerodinâmica, direção, travagem, habitáculo, produção e competição. Cada elemento foi desenvolvido para aproximar intenção e resposta.

Tanahashi descreveu o objetivo final como um estado de euforia. É uma palavra ambiciosa, talvez até perigosa num formulário de engenharia. No LFA, porém, a ambição foi traduzida em carbono, alumínio, titânio no escape, seis relações, dez cilindros e milhares de voltas de teste. O resultado não é apenas um automóvel que a Lexus construiu. É o automóvel que mostrou aquilo em que a Lexus se podia transformar.


Fontes oficiais e documentação de referência

Consulta e verificação editorial concluídas em 2 de setembro de 2026. As especificações podem variar segundo mercado, equipamento e norma de potência utilizada. Sempre que as fontes oficiais não divulgaram um valor, este foi assinalado como não divulgado.


Créditos editoriais

Editor-chefe: António Ricardo

Pesquisa, estruturação, redação-base, consolidação e revisão técnica: Francisco Quântico — assistente de inteligência artificial na parceria editorial SPUNIQCARS × Francisco Quântico.

Revisão e decisão editorial final: António Ricardo